Eu sei que o texto é longo, mas vale a pena lê-lo. Obrigada Amigo e Compaheiro!
Do coração para o papel
Valha-nos S. Valentim !...
As graças e as desgraças do amor jamais acabarão de ser co(a)ntadas... Nas alegrias da vida, ele sempre aparece. Mesmo quando, por desacertos incontáveis, pregamos aos quatros ventos que temos o coração “fechado para obras”... Porque é por falta de “obras” que o coração morre à míngua...
1. ... – Isso não, minha filha, isso NÃO... No passado fim de semana, decorreu no Telefone da Esperança, Porto, um curso intensivo sobre a Autonomia Afectiva. Neste modelo T.E., é o primeiro que se dá em Portugal. Hoje é segunda feira, 10 de Janeiro. Os ecos do curso fervilham gostosamente dentro de mim. Deus louvado porque houve alguém que se lembrou de criar um “instrumento de trabalho” assim, sobre uma matéria destas.
Não sou muito dado a leituras que vejo como que eivadas de um certo determinismo que me repugna: - ... Nada é por acaso... Se sucede isto é porque aquilo... Gosto de me olhar como um ser criado para a liberdade. Ainda que sujeito a todos os determinismos decorrentes do facto de ser uma simples criatura... Criatura, sim, mas uma criatura especial. Imagem e semelhança do meu Criador – capaz de pensar, capaz de sonhar, capaz de decidir e optar, capaz de amar em liberdade. Sempre livre para, a tudo, dar um sentido que expresse, não a minha falta de liberdade em relação aos meus determinismos, mas a minha condição de homem livre – sempre sujeito às leis da natureza, mas sempre livre para lhes dar um significado. Aqui, aquela palavra de Paulo aos Hebreus dá-me muita força: “Pela fé, sabemos que as coisas visíveis provêm do INVISÍVEL, do Amor do nosso Deus” (Hebr 11.3).
Com 44 pessoas em sala (mais um lista de espera para uma nova edição), o curso decorreu cheio de questões que se levantam sobre se sim ou não “isso depende da genética da pessoa”... E todos, quando a conversa vira sobre a nossa vida afectiva, ouvimos a tal ponto questões destas e/ou afirmações de que “isso é da genética da pessoa” que, se nos não pomos a pau, começamos a detestar a genética. E isso seria perder uma “amiga” que nos presta muitas informações úteis e verdadeiramente científicas para uma boa gestão do nosso mundo psicofísico.
Bom. O que eu quero partilhar convosco é que, neste descobrir convergências que a vida sempre é, depois de ter ouvido dados e mais dados sobre a importâncias e transcendências da Família (Grupo de Pertença ideal para criar laços de coração – matéria prima da nossa vida afectiva), fui para o Seminário de Cristo Rei – V.N. de Gaia, participar numa original homenagem ao Pe Santos / Calmeiro Matias, CSSR, recentemente falecido. Entre as dinâmicas propostas ao longo do encontro, houve um momento em que o grande grupo foi dividido em pequenos grupos para que cada um pudesse partilhar o que é que mais o marcou, no seu contacto com o Pe Santos. Depois, no grande grupo, os porta-voz de cada pequeno grupo, comunicavam, em resumo, o que antes tinha sido partilhado.
Um jovem registou isto: Num encontro aberto ao público em geral, Pe Santos falou das marcas deixadas numa criança, quando esta cresce num ambiente de mal amados... Em termos da linguagem científica que foi usado no Curso de Autonomia Afectiva, o Pe Santos terá dito coisas como esta: O tipo de vinculação a que a criança é submetida na sua infância vai marcar definitivamente o tipo de apego(s) que, mais tarde, o adulto irá usar nos seus relacionamentos afectivos. Criança não amada irá dar adulto que nem ama nem se deixa amar. Sempre aos baldões de uma instabilidade afectiva que, muitas, vezes destrói vidas – a começar pela do próprio...
Aí, a Josefa, cuja história afectiva é de muitos calvários bem pesados, saltou e perguntou, alto e bom som: - Ó Pe santos, e isso é irreversível ? Uma pessoa assim está condenada a não mais conhecer o amor verdadeiro, fonte de uma Autonomia Afectiva que pinta a nossa vida das belas cores do Arco Íris ?!...
Aí, o Pe Santos, saltou também e, num característico tom de voz firme e convincente, respondeu:
- Ah, não, minha filha. NÃO!.... Isso NÃÃÃÃO...
2. Os vazios de um amor sem sentido ... Dou comigo a imaginar a cena e o discurso que, depois, se terá desenvolvido. O Pe Santos sabia bem, por um saber de experiências feito, que o segredo da (in)felicidade não está nas vinculações afectivas provocadas pela história pessoal de cada um. O segredo está nas desvinculações que se fazem (quando as vinculações recebidas não foram favoráveis ao nosso desabrochar harmonioso para a vida). Desvincular de vínculos errados (desaprender o aprendido!) e criar novas vinculações (aprender de novo!) – agora já elegidas por nós, em pleno uso da nossa Liberdade de Filhos de Deus. Isso sim que nos pode fazer felizes, segundo as opções feitas conscientemente e em tempo oportuno.
Ouço histórias e vejo cenas que me deixam a pensar: Se não pararmos, quanto antes, para ver em que bancos andamos a depositar os incomensuráveis tesouros da nossa Vida Afectiva, se não cuidamos de Aprender a Amar(-nos), depressa damos connosco caídos nas mãos dos ladrões... A queixar-nos de que fomos roubados. E logo rodeados de lambedores de feridas afectivas que, connosco, vão geremiando desgraças de falta de sorte nos afectos... Porque a única coisa que um lambedor de feridas afectivas sabe fazer é ajudar a tornar crónicas (já sem cura possível) as feridas afectivas que, se cuidadas a tempo e horas, bem podiam tornar-se ponto de partida para descobertas insuspeitáveis de felicidade que se irradia sempre em MAIS E MAIS VIDA.
Ouço a história triste daquela bailarina mexicana que, depois de correr o mundo, pisando palcos de renome, pobremente se vai arrastando como professora de ballet, em cidade de província. Hoje, já octogenária, está acamada e reduzida a uma pobre beneficiária dos apoios domiciliários da Assistencia Social. No seu tempo das vacas gordas, mexeu e foi mexida por histórias de amores que tiranizavam corações impreparados para amar e ser amados com amor verdadeiro. Envelheceu de coração vazio. Mas a fome de amor está lá. Do berço até à morte. Agora, a net, a que também já foi acedendo, abriu-lhe novas pistas do amor – os amores internéticos... Sonha e faz sonhar, incendeia e é incendiada...
Há dias, chama uma antiga aluna que, por compaixão, ainda lhe vai prestando alguma assistência e companhia de calor mais humano que o dos serviços sociais. A senhora quer desabafar e pedir conselho... Nas redes da net apareceu-lhe um libanês que se apaixonou pela “artista” que ela já foi (mas não tem consciência de que já não é...). Na troca de dados, ele informa: – Pronto. Amanhã estou aí. Pode abrir-me a porta...
- O que é que faço agora? Ele está mesmo apaixonado por mim e eu por ele...
Vi a aflição da amiga. – O que é que se pode dizer a uma pobrinha destas?
Valha-nos S. Valentim!... É tão bonito podermos dizer que o amor não tem idades. Mas é tão triste ver que, em qualquer idade, os amores cegos descambam sempre na mesma valeta dos esgotos afectivos de uma sociedade que fez do amor apenas uma miragem de Uma Festa que morre com os primeiros copos de uma encantada perturbação emocional...
3. - Poça, que isto é só desgraças !... Sentados frente à televisão, a conversar de nada, fomos surpreendidos com a notícia do remate, num quarto de hotel em Nova York, desse misterioso drama passional (fado de faca e alguidar...) que envolvia o jet set português Carlos Castro (65 anos) e o jovem modelo Renato Seabra (21 anos). Ouço testemunhos de parentes e amigos. Ouço a palavra autorizada dos psiquiatras - ... Isso é muito complexo. Não se entende. Faltam dados. Grande mistério deve haver... (Ainda não vai faltar quem chame o destino da pessoa e/ou a genética para explicar o mistério...).
Na assumida presunção das minhas crenças e evidências, a chave do mistério passa por aqui: Tudo gente boa, mas que, perdida nos mundos do ter, jamais fez qualquer trabalho interior sobre o SER, para reconhecer, aceitar e aprender a manifestar, de forma adequada, esse mundo original das nossas Necessidade Psico Afectivas. As tenazes da vida proporcionaram-lhes uma situação limite para acordarem. Por falta de apoio para bem gerir essa crise emocional, descambaram...
Somos multidimensionais por natureza. E se a nossa dimensão Psico Afectiva não vive desarticulada das dimensões Biológicas e Sociais, também não pode viver fora da dimensão Noética Espiritual – única capaz de nos proporcionar Um Sentido para a Vida e para o Amor.