quarta-feira, 2 de março de 2011

O Teu infindável Mistério

Obrigada Jesus por me possibilitares horizontes inesgotáveis de beleza e encanto no que progressivamente vou descobrindo em cada coisa que antes me passava ao lado e agora vou dando a sua devida importância. É no quentinho destes nossos encontros comunitários que vai gerando comunhão e cada vez mais nos sentimos mergulhada num Deus sempre novo e Fiel no Amor. É nesta caminhada conTIGO que vou descobrindo a essência fundamental no mais concreto e fecundo da vida. É através de Ti que vou tomando consciência de que nem sempre sou capaz de ser coerente e me desinstalas das minhas inseguranças... Obrigada por pouco a pouco me ires ajudando a desprender-me do que não é necessário e PRENDER-ME com Força e Garra na construção da minha história que também é TUA.

Olha Jesus, sabes que este período dogmático foi para mim, um bocadinho confuso... como o é, quando em vez de querermos descobrir quem és, começamos a perguntar o que és! Como o é, quando nos afastamos da Tua raiz histórica, onde vivias, com quem convivias, de como falavas de Deus a quem chamavas de Abbá, e começamos a olhar-te e a falar de Ti segundo as nossas circunstâncias históricas... como deve ter sido confuso, para eles naquele tempo quando quiseram anunciar-Te como boa Nova a povos que não tinham a mesma cultura que a tua e como começaram a falar de ti como alguém tão distante, quando eras exactamente o oposto com os teus...

De todo este período, e depois de ter ouvido falar de Ti de tantas formas, uma coisa eu ENTENDI e tenho a absoluta certeza de que não quero de maneira nenhuma desgarrar-me: O TEU INFINDÁVEL MISTÉRIO!!!...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sabiam que usar a palavra "invisual" como sinónimo de cego está errado?

Eu não sabia até ser chamada à atenção mais de que uma vez! Desde então fiquei intrigada e resolvi pesquisar no Google a diferença entre a palavra invisual e cego... Encontrei este site:www.leparaver.com. Para além disso partilho convosco estas opiniões que me foram enviadas por e-mail:

Cego ou invisual eis a questão…

Como cega recente, tolero as garfes que vão aparecendo na gramática, não dando importância aos termos incorrectos. Cega ou invisual, qual é a diferença teremos sempre esse estigma, o certo era nunca utilizar essas palavras.
Estaremos sempre associados a coitadinhos, pobrezinhos, ceguinhos e não só.
A questão é porque não somos apenas nós? Quando foi registada, não tinha qualquer tipo de adjectivo, antes do meu nome próprio
.
Elisabete Pinho

Na opinião de uma pessoa que é cega, tecnicamente falando, não gosto que me denominem de invisual, ceguinha ou outro qualquer adjectivo. Chamemos as coisas pelos seus nomes e não por palavras, que apesar de já começarem a ser reconhecidas, não descrevem na minha opinião aquilo que eu sou.
Eu sou cega!

Anunciação Velho

Na minha opinião a palavra invisual magoa mais do que se me chamassem cega. Se o sou efectivamente, ou praticamente, não quero que me apelidem de qualquer outra coisa.
Diana Soares

As pessoas que vêem tratam os cegos por invisuais ou por ceguinhos. Eu acho que não devem tratar os cegos dessa forma, devem tratá-los como eles são!
Pessoa cega.
Georgina Mesquita

Eu acho que as pessoas que têm deficiência visual preferem que sejam chamadas por cegos, porque se forem chamados por invisuais estão a trata-los por coitadinhos e ceguinhos e isso eles não são.
Eu tenho baixa visão e não gostava que me chamassem de ceguinha ou invisual, porque isso para mim era como se me estivessem a ofender.

Tânia Sousa

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Como um cego escreve e lê


Como já devem ter percebido pela história que leram anteriormente, a Anunciação é praticamente cega. É das pessoas mais incríveis e admiráveis que eu já conheci! Admiro-a muito na sua coragem e toda a força de vontade que revela em tudo o que desempenha e ainda a que consegue passar aos demais pelo seu exemplo.
Bom, para além de tudo que ela descreveu, ainda pratica Judo (cuidado! Não se metam com ela!!!) :)
Agora, ela esclarece um dado que a meu ver e particularmente acho muito importante: Graças às novas tecnologias!

"Quero que fiquem com a noção de como um cego escreve e lê. O método mais usado e indicado para esse fim é sem dúvida nenhuma o Braille, mas, com o avançar das novas tecnologias as opções têm-se diversificado.
Desde á inúmeros anos que os computadores podem ser equipados com softwares de leitura de ecrã, reconhecimento de texto que permitem aos cegos ter a noção do que estão a escrever, os erros que cometem na redacção e ter acesso a todas as áreas da informática. kj
Para se iniciar essa aprendizagem é fundamental conhecer na perfeição o teclado do computador.
Ao usar as duas teclas guias existentes em qualquer computador, na tecla F e na tecla J, o posicionamento correcto das mãos é fundamental.
Os indicadores nas teclas F e J, os médios nas letras D e K, os anelares nas letras S e L e os mindinhos nas letras A e Ç.
Ao posicionar as mãos nesta que é a posição correcta, seguidamente temos que com os dedos da mão esquerda o indicador sobe e vai ligeiramente á direita e encontra a letra T, e se o fizer deslizar para baixo e ligeiramente para a direita encontra a letra V. ao seguir este procedimento em relação a todos os dedos, passamos a ter consciência do posicionamento de todas as letras e depois é só praticar.
Claro que existem inúmeros comandos e teclas de atalho que temos que memorizar e de colocar em prática para que a utilização seja mais fácil.
Com a velocidade a que as novas tecnologias se têm desenvolvido, cabe-nos a nós aproveitar toda a informação que elas nos podem proporcionar.
Claro que estes programas têm um custo proibitivo á maioria dos cegos, mas aos que podem adquiri-los é dada a oportunidade de fazer parte da informação a nível mundial."

Anunciação Velho

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Segunda Parte da História da Anunciação


ENFRENTAR AS NOSSAS LIMITAÇÕES… É ACEITAR!

As palavras que se seguem abaixo são apenas uma pequena reflexão de algumas coisas que me têm sucedido.
Espero que elas consigam incentivar alguém que esteja na mesma situação que eu estava antes de iniciar a minha recuperação.

O aceitar é indispensável


Quando nos acontece no meio da nossa vida ficarmos privados de usar os nossos olhos para conseguirmos ser autónomos, no meu entender a primeira coisa que deveremos fazer é aceitar o mais rapidamente possível o que nos está a acontecer.
Esta aceitação é indispensável para podermos partir para as próximas etapas com a plena consciência de tudo o que nos está a acontecer. Por vezes esse processo é difícil e a família não costuma ajudar muito nesse mesmo processo.
Muitas vezes uma ajuda profissional é necessária para que a aceitação decorra com normalidade. Quanto mais rapidamente esse facto for assimilado mais rapidamente a nossa vida avança.
A revolta por vezes bloqueia-nos as ideias e os sentimentos são contraditórios mas temos que reagir prontamente como faríamos se enfrentássemos outro qualquer problema.
As pessoas mais próximas normalmente são quem mais sofre também com esses sentimentos de revolta e negação.

Procurar ajuda é necessário


A ajuda das instituições competentes é absolutamente essencial para que uma recuperação seja bem sucedida em todas as áreas da nossa vida. Nem sempre temos conhecimento dos sítios a que devemos recorrer e por esse mesmo facto por vezes passa muito tempo antes que a recuperação seja iniciada.
Para a minha pessoa a instituição a que recorri foi a ACAPO, e foi por conhecimento pessoal e não por indicação de qualquer médico ou pessoal qualificado que penso que deveria ter a obrigação de o encaminhamento dos utentes para os locais que eles conhecem e sabem poder ser de grande utilidade para as pessoas cegas ou com baixa visão.
No meu entender era uma obrigação de qualquer oftalmologista que identificasse qualquer pessoa que tivesse essas características encaminhá-las para as ditas instituições para serem acompanhadas com toda a atenção e profissionalismo que elas merecem.

A reabilitação é fundamental!


Como iniciação da nossa recuperação completa, é necessário recorrermos aos serviços especializados para o processo. No meu caso foi a ACAPO e considero que todos os ângulos da questão foram trabalhados.
Na associação tive acesso a uma psicóloga que me ajudou a enfrentar e a aceitar a constatação do meu problema. Apesar de eu já estar a meio do meu processo de aceitação e ter uma ideia do que me esperava, lá deram-me uma perspectiva mais positiva e também realista do meu futuro do que aquela que eu pensava que ia ter. O apoio da psicóloga foi fundamental.
Tive acesso às actividades da vida diária com a aprendizagem do reconhecer o dinheiro, identificar texturas e cheiros, truques para funcionar com os electrodomésticos, posicionamento do corpo ao cozinhar, métodos para reconhecer peças de roupa e todo um sem-número de pequenas dicas para serem utilizadas no dia-a-dia.
Com a técnica de mobilidade e desporto aprendi a confiar nos meus sentidos, a utilizar o meu sentido de orientação e as referências que me ia dando ou que eu já possuía mas não utilizava.
Aprendi a confiar no meu sentido da audição e a posicionar-me correctamente.
Ao ter aulas de mobilidade com o auxílio de uma bengala, a que me adaptei perfeitamente e aceitei com agrado pela perspectiva de ser independente, obtive experiências que me enriqueceram como pessoa pois os outros transeuntes normalmente estão dispostos a ajudar e sempre que necessitei de auxílio para me deslocar nunca me faltou quem me ajudasse.
Na vertente do desporto e como tinha aumentado de peso corporal e tinha dificuldade de equilíbrio tive ajuda e aulas de desporto nas instalações da associação que me ajudaram a perder algum do peso que tinha em excesso e por natureza ganhar mais equilíbrio.
O serviço de Assistência Social ajudou-me a preencher formulários, fazer pedidos de ajuda alimentar, foi-me facultada a opção de me inscrever como sócia da ACAPO, toda a ajuda me foi facultada pela por este serviço que sempre funcionou na perfeição.
Com a técnica de TIC e Braille foram-me proporcionados ensinamentos básicos dos mesmos mas apenas porque frequentei por pouco tempo esses serviços. Mesmo assim acreditem que essa aprendizagem foi um passo importante para o percurso que eu quero prosseguir.
Neste momento já estou em formação no departamento da ACAPO no Porto e essa aprendizagem deu-me uma vantagem preciosa.
É muito mais fácil conseguirmos fazer as coisas bem feitas se as bases são boas.
Quem aceda a esses mesmos serviços e invista na sua aprendizagem tem lá tudo o que necessita para aprender e desenvolver essas competências.
Na oficina do Trapilho, uma das vertentes do Grupo das Manualidades, aprendi a partilhar conhecimentos e truques para os trabalhos manuais. Algumas das práticas que lá utilizávamos eram básicos mas aprendi a fazer coisas que pensava que nunca seria capaz de fazer por causa da minha baixa visão. O enfiar uma agulha, fazer malha ou outras actividades do género são incentivadas neste espaço e a aprendizagem é não só através das técnicas mas também da partilha entre colegas que é incentivada pelas técnicas que lá laboram.
Claro que tudo tem o seu propósito, e não é só o de fazermos os trabalhos de que temos tanto orgulho. A finalidade é a de obtermos mobilidade e desenvolver a sensibilidade dos nossos dedos, coisa que vai ser indispensável para a leitura do Braille e a escrita do mesmo.
E acreditem que isso é extremamente importante!
O Braille é das ferramentas que podemos desenvolver que nos dá mais vantagens na nossa integração.


Vencer a insegurança é preciso

Depois da maior parte do trabalho estar efectuado é necessário vencer a insegurança que nos toma sem nos apercebermos disso. Normalmente a nossa família é óptima a fazer-nos sentir incapazes e inseguros, não por maldade mas por nos quererem proteger de todos os acidentes que possam ocorrer com a nossa pessoa.
Não podemos permitir que isso aconteça!
Temos que nos tornar cada vez mais independente e autónomas que nos for possível.
Se permitirmos que nos façam as coisas, quer queiramos ou não estamos a permitir que nos tirem as armas para conseguirmos esse propósito.
Esta é uma luta de todos os dias mas conseguimos vencê-la.

A requalificação profissional / formação profissional


Depois de termos passado por todas as outras etapas, mas não forçosamente termos terminado todas elas, devemos dirigir todas as nossas atenções para a requalificação profissional e consequentemente para a formação profissional em local apropriado a esse fim.
Ao termos uma avaliação nas instalações do centro de formação e com os técnicos e formadores, somos avaliados e dirigidos para a formação que eles entenderem serem o mais indicado para cada um de nós.
A formação em si é exigente mas muito estimulante e com propósitos bem definidos. Na sequência da formação temos acesso a um estágio e consequentemente a possibilidade de poder provar que somos profissionais naquilo que fazemos e mesmo que no fim esse estágio não se transforme em posto de trabalho, a possibilidade de estar inserida no mundo laboral por um período de tempo, mesmo que curto, já é incentivo suficiente para nos esmerarmos em todas as tarefas que nos são exigidas.

Conclusão:

Se no princípio nos custa muito aceitar que já não podemos fazer certas coisas pela falta de visão, também é certo que amadurecemos com as nossas provações e adquirimos forças que jamais pensávamos ter. com a ajuda competente de todas as técnicas e formadores da ACAPO, tenho a certeza de que vou conseguir aproveitar todas as potencialidades que possuo. Sou uma pessoa mais feliz agora que tenho mais limitações visuais do que quando via melhor e não me sentia realizada nem me sentia parte de nada neste mundo.
Agrada-me particularmente saber que posso contar com a minha instituição para me apoiar. A ACAPO é das melhores coisas que me apareceram na vida.
Foi através dela que me consegui erguer de novo depois de um tão grande percalço.
Hoje faço parte de algo, sinto-me quase completamente integrada, sei que já possuo as ferramentas que me vão permitir alcançar os meus objectivos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Hoje Partilha Contigo... ANUNCIAÇÃO


Sinto um enorme privilégio por conhecer a Anunciação! A experiência de vida que ela própria testemunha toca-me de uma forma muito especial!!!

O ENCARAR DO SABER…

A felicidade de não se ter conhecimento dos problemas quando somos demasiados jovens é uma das coisas de que tenho plena consciência que desfrutei. Tenho memórias muito vivas de quando tinha quatro ou cinco anos e apesar de muitas vezes ir de encontro ás coisas, bater com a cabeça nas esquinas das portas, de brincar debaixo de uma mesa e levantar-me sem ter a noção de que ia bater de encontro á mesma e até de cair muitas vezes sem razão aparente. Com todos esses percalços muitas vezes fui parar ao hospital para me ser suturada a testa ou o couro cabeludo. Nada disso me fazia pensar na possibilidade de não ver bem, encarava com normalidade todos esses factos.
Foi um período de felicidade absoluta pois não fazia ideia de que as outras pessoas que me rodeavam tinham outro tipo de visão diferente da minha. Nessa altura eu pensava que o que conseguia ver era igual ao que os meus irmãos viam, que todas as outras pessoas viam as coisas desfocadas e que se me aproximasse delas já as via melhor e por isso não consumia a minha cabeça com semelhantes pensamentos.
Claro que me alcunhavam de desastrada, de distraída, achavam mesmo que eu era uma criança com um défice de atenção, ralhavam-me imenso para eu prestar mais atenção para onde ia mas nunca me foi passada a mensagem de que era diferente das outras crianças nesse período da minha vida, até porque penso mesmo que nem os meus pais faziam a mínima ideia do que estava a acontecer comigo a nível da visão.
Quando entrei para a escola primária, quase com seis anos de idade, no início a professora colocou-me a alcunha de preguiçosa, pois eu não conseguia ver para o quadro preto apesar de estar sentada nas carteiras da primeira fila da salas de aula e de deitar a cabeça na dita carteira quando tinha de escrever alguma coisa ou para ver o que a professora me tinha escrito na lousa que usávamos para fazer os trabalhos na altura em que frequentei a escola. Nem nessa altura eu tive a noção de que algo de diferente se passava com os meus olhos, como não tinha oportunidade de conviver com muitas crianças por convicção dos meus pais de que isso não fazia falta mas por vezes ainda era prejudicial, eu nunca tinha tido grande oportunidade de fazer essas comparações até essa altura em que passei a conviver com todas as meninas que estavam na sala de aulas comigo e as outras todas que frequentavam a escola nos outros anos lectivos.
Inesperadamente a minha professora mandou chamar os meus pais á escola e informou-os de que tinha a certeza de que eu sofria de uma qualquer deficiência visual e que seria aconselhável dirigirem-se a um oftalmologista para uma consulta para esse problema me ser diagnosticado. Nessa altura com quatro filhos para sustentar e com os parcos salários de que dispunham, os meus pais fizeram o esforço de me encaminhar para um oftalmologista particular, pois já naquela altura as consultas de especialidade eram muito demoradas e eles não quiseram correr o risco de que o problema se agravasse por falta de assistência médica.
Aí sim, foi-me diagnosticada a Miopia congénita patológica, o estigmatismo e a ambliopia do olho esquerdo com que eu já tinha nascido mas que até essa altura ninguém tinha tido conhecimento. O problema era muito grave e progressivo, foi o que o médico disse aos meus pais e mais tarde aos oito anos disseram que antes dos dezoito anos de idade estaria cega. Eu passei a ter de usar uns óculos pesadíssimos e com as lentes que pareciam dois fundos de garrafa, mas assim lá ia conseguindo ver o suficiente para acompanhar as colegas de aula e ser uma boa aluna. A partir dessa altura passei a frequentar as consultas da especialidade de oftalmologia no posto de Nova Sintra no Porto, e durante todos os anos em que lá fui atendida a única coisa que me foi feita foi o alterar das graduações nos óculos para actualizar a graduação e dizerem que nada mais havia a fazer pela minha vista.
Com todos estes condicionantes na visão, passei a sentir-me inferiorizada em relação a todas as outras pessoas com quem convivia. Afastava-me das colegas de turma quando elas brincavam á bola ou ao saltar ás cordas, deixei de ser convidada a participar nessas ou outras actividades, fechava-me cada vez mais em mim própria, e isso depois teve o seu retorno por parte delas, era gozada permanentemente por quase todas as colegas, passei a refugiar-me junto dos adultos, empregadas ou professoras da escola que era onde me sentia mais segura e tentava ser apreciada sendo boa aluna e estando sempre pronta a ajudar no que era necessário.
O medo foi-se apoderando da minha pessoa, tinha medo de correr ou saltar e partir os óculos, de não ver a bola antes de ela me bater na cara, de me sentir pouco à-vontade junto das outras pessoas por usar uns óculos tão horríveis que ocultavam completamente os meus grandes e brilhantes olhos castanhos. Das experiências mais traumatizantes de que me lembro, foram uma ida para a Colónia de férias e no dia que cheguei cair imediatamente e ter de ser socorrida no posto de emergência do local para ser suturada, e de numa das saídas na noite de S. João em que uma pessoa me bateu com o martelinho na cabeça, fez-me cair os óculos que se estilhaçaram no chão e depois se foi embora antes mesmo que os meus pais tivessem tempo de lhe pedir contas. Claro que tiveram que pagar os óculos e essa despesa foi muito pesada. Estes factos e muitos outros que foram ocorrendo iam afectando a minha auto-confiança.
Provavelmente as coisas não seriam tão horríveis se o meu feitio não fosse o de uma criança tão fechada para tudo o que não fosse necessário para manter os meus pais felizes e sem mais encargos do que aqueles que eles já tinham na altura.
Sempre adorei ler e esse hábito passou a fazer parte da minha ideia de isolamento, as outras colegas não entendiam como é que eu gostava de ler livros sem parar, quando elas só liam quando eram obrigadas pela professora e mais uma vez fui apelidada de esquisita por não fazer as coisas que as outras faziam mas sim o que os adultos apreciavam que eu fizesse.
O meu estado de espírito não era propriamente dos melhores e depois de entrar para o ciclo preparatório as coisas ainda pioraram. Eu tinha pena de não conseguir ver o que os outros viam, por vezes pensava que devia ser um castigo qualquer por algo que eu tivesse feito, mas por melhor que me portasse a visão não melhorava, pelo contrário cada vez que ia ao oftalmologista as notícias eram sempre que estava a piorar rapidamente e que não tardaria a cegar.
Acredito que não houvesse grande informação na altura sobre a minha doença, mas era terrível para mim de todas as vezes que lá ia e a sentença me era confirmada mais uma vez. Naquela altura nem sequer sabia realmente qual o meu problema de visão, tinha a consciência de que via as coisas como se tivesse uma cortina de fumo permanentemente á frente dos meus olhos, só conseguia ver as coisas com maior definição quando as aproximava da minha cara ou a média distância quando semi-cerrava os meus olhos e forçava a vista para ver melhor o que me rodeava. Não fazia ideia de que isso é muito frequente nos míopes com graduações muito altas, mas tentava-me adaptar o mais possível á visão que possuía na altura e fazer as tarefas o mais naturalmente que me era possível para não chamar as atenções para mim.
Passei a tentar ver e ler o mais que me era possível pois pensava que tinha pouco tempo para apreciar as coisas belas da vida e os livros e filmes que eu tanto gostava de ler e ver. Na altura não sabia que existiam maneiras diferentes para ler um livro ou executar outras tarefas mesmo estando cega, por isso tinha tanta urgência em devorar tudo o que me era proporcionado.
A sensação de nem sequer conseguir ver as pessoas que eu conhecia bem a apenas poucos metros de distância, de não identificar uma colega ou empregada que passasse por mim do outro lado da rua era tão frustrante que a partir de certa altura optei por simplesmente olhar sempre em frente e não como todas as outras pessoas que olhavam em redor, mas com isso eu protegia-me de todos os que pensavam que eu as estava a ver e não falava ou Cumprimentava por minha iniciativa ou má educação. Durante muitos anos essa foi a minha opção e por isso mesmo as pessoas que não me conheciam tão a fundo pensavam que era uma criatura antipática e pouco sociável.
Felizmente passaram muitos anos antes de cegar, e não foi pela doença em si mas por um acidente estúpido que me feriu olho direito, aquele que tinha alguma visão.
Provavelmente por toda a vida ter esperado inconscientemente por esse momento, na altura em que fiquei sem ver a reacção foi quase imediata e tentei arranjar soluções para os problemas que me foram surgindo naturalmente e ao contrário da minha família penso que encarei com relativa naturalidade o que tinha sucedido.
É evidente que quando me recuperaram parte da visão fiquei felicíssima, mas também tenho plena consciência de que pode ser um estado provisório e estou-me a reabilitar de maneira a ser capaz de ser autónoma mesmo numa situação de cegueira de novo.
Por incrível que pareça não é das coisas que mais me assusta, o ficar cega, tenho vários exemplos de pessoas com a vida bem resolvida e que cegaram recentemente e que me dão alento para tudo o que provavelmente ainda terei que enfrentar.
Se quando era criança ou adolescente me sentia inferiorizada, diferente, esquisita e me mantinha á parte de tudo e de todos, hoje em dia faço questão de me sentir como parte de algo, e se os outros não se sentem tão á vontade com as minhas limitações visuais isso já não me afecta. Penso sinceramente que me aceitei como sou e isso me está finalmente a fazer sentir feliz.
Por vezes é necessário que algo de muito drástico nos aconteça para nos darmos o devido valor.
Eu aprendi a valorizar-me continuamente e isso faz com que me sinta cada vez mais integrada e pronta a viver a vida.
Tenho a certeza de que as minhas capacidades ainda não foram totalmente exploradas e por isso agora faço questão de aceitar todos os desafios que me são apresentados no dia-a-dia e até enfrentar projectos que á algum tempo atrás nem me atreveria a pensar em aceitar.
Creio que vou ser capaz de partilhar todo o meu positivismo a todas as pessoas que me rodeiam.
Apesar de todas as minhas limitações, vou ser capaz de triunfar e realizar-me.

(Continua)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Amor constroi-se...

Com a experiência de mais de duas décadas em evolução de uma história cultivada e alimentada a dois, acho que namorar é ir ao encontro do coração do outro, encontrando e construindo morada. Habitando-o e deixando-se habitar por aquele que vem ao nosso encontro... o outro que tal como eu, é um ser único, livre e responsável, por isso não há cá meias laranjas, há seres humanos que constroem morada, que constroem uma relação de ternura, de afecto, de carinho e de paixão no coração um do outro.

E isso alimenta-se todos os dias... como a fogueira que necessita de lenha para se manter acesa, ou a planta de água e sol para crescer...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Obrigada Jesus por não largares a tua mão da minha...


Este momento de conversa com Jesus, foi a 19 de Setembro de 2009. Foi um daqueles momentos que só quem experimenta é que pode descobrir e saborear o quanto de verdadeiro tem em alegria, exultação e Gratidão no coração. É assim que me sinto quando me encontro com Jesus. Deixei-me levar pela doçura da Ruah, Espírito de Deus, e tudo o resto aconteceu.

Espero que aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de comungar este momento comigo lhes saiba bem. Para os que sim, espero que lhes soe a Novo e Real como ainda continua a ser para mim... Obrigada Jesus por não largares a tua mão da minha...


Hoje é conTIGO que falo!!!



Obrigada por me dares a capacidade de descobrir a forma mais fecunda de Te encontrar. O silêncio que encontro dentro de mim própria para Te sentir e Te escutar no essencial. Sentir a Liberdade de dizer o que espontâneamente tenho vontade, sem sítio e hora marcada e sem regras impostas por rezas feitas e decoradas. É deste jeito que gosto de estar conTigo. É deste jeito que faz todo o sentido e Tu sabes muito bem como estes momentos se tornam mágicos para mim. Descubro a forma mais interior que tenho de me encontrar no melhor de mim mesma! É delicioso sentir o sabor destas coisas que me deixam sempre mais forte e com uma facilidade de discernir os obstáculos com outra sabedoria.

A cada dia que passa surpreendes-me cada vez mais! Encontro algo que me encanta e me faz sorrir o coração. Vejo milagres acontecer diante dos meus olhos. Sinto-me parte de uma história que é tua também. Quando a assumo percebo que é maior que a minha, onde eu não sou insignificante, mas ajudo a construí-la: a história da tua ternura connosco, a história da tua ternura comigo. Não a escrevo sozinha, mas contigo. Estendes-me a mão e dás-me a independência e a liberdade de a saber amar e transmitir.

Dá-me aquela força interior que tu tão bem conheces! Aquela que desencanto não sei bem onde, nem porquê, mas que me dá a garra de viver cada dia melhor, mais feliz e realizada. Sinto-te a dizer "Força! És capaz!" A tomar partido por mim, pela minha história, a assumi-la na plenitude, com a liberdade de que só o amor é capaz. Sinto que acreditas cada vez mais em mim, que me lanças sempre mais além do que eu poderia imaginar e sonhar! E parece mesmo que o sonho comanda a vida, comanda as tropas que derrotam as montanhas que pareciam intransponíveis e que afinal, tantas vezes, só estão dentro de mim. Exulto de alegria, exulto de uma alegria profunda quando vejo frutos da persistência, da paciência tornarem-se nossos. E serem não a minha história, mas a nossa história. E porque é a nossa história faz parte da História maior que me leva a exultar de alegria que Deus é Bom, Grande e Fiel! A minha força, a minha fortaleza, a minha rocha firme. O meu Libertador. O nosso Jesus Ressuscitado!!!

Bem Aventurados os que descobrem o gozo e o prazer de saborear o segredo das suas vitórias.
Bem Aventurados os que experimentam o sabor e a alegria de saber Louvar.

Jesus, não posso deixar de te dizer que este momento de conversa conTigo, soube-me muito, mas muito bem!!! Por agora, sabes que tenho de terminar, mas, por favor, não largues a tua mão da minha!!!