"Só vivemos uma vez...
Se não estamos atentos, rotinam-nos a vida de tal maneira que acabamos por “funcionar” mais do que vivemos. Neste “primeiro mundo”, quase tudo parece organizado numa lógica de máquina global em que cada pessoa funciona como peça-chave de uma engrenagem. Peça-chave, mas não insubstituível, o que é causa de muitos medos e inseguranças.
A gratuidade passa a ser uma coisa supérflua, o amor um luxo para poucos, a família um peso, a generosidade um risco, a confiança uma ingenuidade, a espontaneidade uma garotice, a diferença um perigo…
E não só perdemos o tempo e o gosto de estarmos juntos, como acabamos por nos desabituarmos completamente de estarmos connosco próprios! Pouco a pouco, começamos a não nos habitar, a funcionar como que fora de nós, fora dos desejos mais íntimos porque não há tempo nem disposição para lutar por eles, e das dores mais fundas porque ninguém é digno de confiança para lhes tocar.
Conheço pessoas que me dão a ideia de terem a Vida intacta guardada num armário lá de casa, pendurada num cabide, e entretanto vão passando os dias com uma espécie de “corpo alternativo” que só serve para trabalhar e funcionar. Uma espécie de “fato-macaco existencial” enquanto a Vida espera, como se fosse um “fato de gala” para ser usado só em situações especiais que, tipicamente, começam a ser cada vez menos…
Tiras-lhes esse “fato-macaco” e fica a nudez de um corpo cilindrado pelo peso dos dias. Valeu a pena? É mesmo essa a única maneira?
Não só perdes o gosto dos outros, como o gosto de ti mesmo! Deixaste de gostar de ti. Vais perdendo até a capacidade de te dares àqueles que amas e a capacidade de te receberes deles, porque não te possuis. Sim, só se dá quem se possui. Temos que ter-nos, para nos termos para dar!
Possuir-se, ter o domínio de si, ter-se a si mesmo são maneiras de dizer a capacidade de dar-se, a disponibilidade de oferecer-se a alguém. Ter o domínio de si não é simplesmente ter o controlo absoluto sobre as suas reacções, sentimentos, gestos… Muitas vezes este “auto-controlo” tem mais a ver com medos, recalcamentos e feridas mal curadas do que outra coisa…
Ter o domínio de si tem a ver com uma sensatez e sabedoria que não anulam a espontaneidade nem a criatividade de ser, amar e dizer-se. Possuir-se para dar-se. Quando nos roubam de nós mesmos, estão a roubar-nos daqueles que amamos, porque quando nos tiram das nossas próprias mãos, estão a esvaziá-las, deixamos de nos ter para nos oferecermos.
Temos cada vez mais consciência global de Direitos Humanos, a nível mundial, mas abdicamos deles inconscientemente no nosso dia-a-dia sempre que nos deixamos escravizar interiormente pelas lógicas que nos obrigam a deixar de lado a nossa espiritualidade, aqueles que amamos, a nossa família, a nossa dignidade, a nossa criatividade, a gratuidade do nosso tempo que gostaríamos de encher do único que é para sempre…
Porque às vezes parece que é possível ocupar a maior parte da vida a fazer o que não se quer e o resto a lamentarmo-nos dela!
Desde o princípio que estou a lembrar-me de uma imagem que Jesus deu da Festa da Salvação, dizendo que era como um grande Banquete, o “copo-d’água” da Aliança de Deus com uma Humanidade renovada para a qual todos estávamos convidados. E, enquanto ele se passeava na Festa, saudando os convivas, encontrou um que não estava vestido com o traje nupcial. E perguntou-lhe: “Quem te deixou entrar assim, sem o traje nupcial?!” E ficou fora da Festa…
Vestir o traje nupcial é revestir-se do Homem Novo, uma imagem do Apóstolo Paulo para falar do Baptismo e da Fé em Jesus Re-Suscitado, o Homem Novo.
Acredito que ser mais sábio e livre na maneira como vivemos o concreto do nosso dia-a-dia tem tudo a ver com o impulso pascal em que a ressurreição de Jesus e a dinâmica do Espírito inscrevem a nossa Vida…
Acredito mesmo que aquilo que partilhei aqui sobre a nossa vida como “fato-macaco existencial” e a linguagem do “fato de gala” também tem qualquer coisa a ver com o que no Novo Testamento se diz com “despir-se do Homem Velho e revestir-se do Homem Novo”…
SHALOM"
Rui Santiago
Sê tu mesmo a mudança que queres ver no mundo!