quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Tristeza...

  Quantas tristezas por vezes se apoderam de nós, muitas vezes sem que uma pessoa se aperceba.
Inconscientemente vai-se apoderando de nós, minando aquilo de que melhor temos, a alegria, instalando-se insinuosa… .Temos de a combater, procurar algo que nos faça feliz. Ajudar os outros é sempre uma boa solução, pensar no que podemos fazer por quem está pior do que nós.
Não sou dada a saudosismos, não gosto particularmente de ficar a chorar pelo leite que se derramou. Prefiro muito mais ir à luta, colocar e exibir uma máscara que me protege e continuar a vida até que de facto me sinta melhor.
A escrita vale muitas vezes para desabafar, em versos, quadras e rimas, tem-me ajudado muito, mas não é consensual.
É difícil para muitas pessoas aceitarem preto no branco mas eu gosto mesmo de escrever em verso aquilo que me vai na alma.
Por isso, partilho abaixo algo que foi escrito como um grito de revolta, num momento em que aos 45 anos, quase cega, não sabia bem o que havia de fazer da minha vida.
Aceitem a minha mensagem como processo de aceitação e de partilha de sentimentos, coisa que penso ser essencial se partilhe com quem nos rodeia.

SER LIVRE!

Quero ser livre para escolher
Poder decidir mesmo sem ver
Colocar alta a fasquia
Andar em frente, nunca retroceder!
Pois estou farta!
E de quê devo estar farta?
Da indiferença, da hipocrisia,
Do ressentimento,
Ou da minha Ambliopia?
Estou farta da frieza,
Da falta de visão,
Não da minha que vejo pouco,
Mas de quem toma a decisão.
Gosto de viver, de trabalhar,
De pensar no futuro,
Mas há sempre algo para atrapalhar,
Uma nova lei, no meu percurso.
Devo estar farta da família,
Que de ajudar, atrapalha,
Do olhar do passante,
Que o indiscreto raia.
Farta que mandem em mim,
 amigos, família ou doutores,
Duvido da minha existência,
Apesar de cega, gosto de cores!
Farta de dar satisfações,
De não ter oportunidade,
De ter que provar o meu valor,
De toda esta ansiedade.
Estou farta mas não desisto,
Exijo a minha liberdade
Quero ser dona da minha vida
Viver rodeada de verdadeira amizade!

                                                                 Anunciação Velho 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Amar e deixar-se amar

 (Para os deficientes visuais: esta imagem representa duas crianças a oferecer uma flor uma à outra num campo preenchido de ervas e flores silvestres)

  Entendo que é no dar e receber que a vida se torna abundante e que cada um se realiza como pessoa.
 Amar, partilhar e contribuir para o bem comum, dá sentido à vida. Quando nos fechamos em nós mesmos, a alegria abandona-nos e um grande vazio apodera-se de nós.
  Hoje partilho um pouco da minha experiência como voluntária.
Alguns dos trabalhos de voluntariado que faço, parecem-me, por vezes, de pouca importância, ou seja, como não se vêem resultados imediatos, parece terem sido realizados em vão. No entanto, tenho vindo a aperceber-me cada vez mais que nada daquilo que é feito por amor é pequeno.
  Às vezes acontece-me ter dificuldade em sair de casa para a Missão com que me comprometi. Surgem-me ideias (tentações) como: “está frio, está a chover, tenho tanto que fazer em casa, nem sei se vai valer a pena ir, etc”. Mas rapidamente afasto todas estas ideias e faço aquilo que me sinto chamada a fazer. E, geralmente, no regresso sinto uma grande satisfação e uma alegria imensa. Percebo então que o que sinto não é por ter realizado uma grande obra ou feito algo de muito espetacular, mas simplesmente porque o fiz com amor. E muitas vezes não fiz mais do que estar presente, escutar e acolher.
  Uma palavra ou um gesto de gratidão mostra-me claramente que o verdadeiro amor é recíproco, ou seja, que o amor que eu pus na minha ação foi sentido pelo outro, e isso conforta-me e ajuda-me a ultrapassar todas as barreiras que às vezes possam tentar impedir-me de o fazer.
  Esta realidade ajuda-me­­ a crescer e a tomar consciência de que o importante não é preocupar-me se faço pouco ou muito, mas sim no amor que ponho na ação à qual me entrego. É esta a minha experiência: a descoberta do sentido da vida que me impulsa a continuar e não desistir.
  Que Deus me ajude a encontrar sempre a alegria neste jeito de viver. Um jeito ou um critério de vida que quero aplicar no meu dia-a-dia como esposa, mãe, filha, irmã, amiga…
  Quero amar e deixar-me amar.
  
 Mila

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Em jeito de “CRÓNICA DE CINEMA”


Fomos ao cinema mas, calma! isto não é uma crónica de cinema. Simplesmente partilho convosco algumas coisas que me saltaram juntamente com as imagens que corriam no ecrã.
BELLA é um filme de 2006 do realizador mexicano Alejandro Monteverde. Embora estreante e sem grandes meios ofereceu-nos UM GRANDE filme e, os GRANDES filmes costumam começar com uma imagem que indicia o Fim. 
 
BELLA começa num olhar vago, absorto… um olhar que faz Memória. Um olhar que VÊ uma História compriiiiida, olhando para uma menina de 4 anos, que cresce em “estatura, sabedoria e graça” e, naquele momento, brinca na orla da espuma, molha os pezitos e corre atrás das gaivotas…
Um apontamento lindíssimo de ondas que se enrolam na areia. Todas diferentes, vão e vêm. Como na vida… Nada é linear… nem certo… nem seguro…
Mas, nem por isso eu me conformo com a frase inicial do filme “se queres que Deus se ria de ti conta-lhe os teus projectos” … 

Não acredito num Deus que se ria dos meus projectos nem tenha gozo em mudar-mos. Claro que tem um projecto de Felicidade para mim e quer-me seu “parceiro” mas, o meu Deus dá-me a capacidade de projectar, decidir, escolher, assumir consequências e responsabilidades das minhas decisões do meu ir por aqui ou por ali… Também do modo como vou, da minha postura perante o que acontece para além de mim e que, de algum modo, vem ter comigo. A minha vida é uma sucessão incrível de “escolhas responsáveis”…. E, no filme, para mim, isto fica bem claro.

MAS… não poucas são as vezes em que nos centramos no nosso “ter e poder”…

Essa nossa omnipotência pode matar e matar-nos de muitas maneiras. E quando o “inesperado” acontece e nos deixa feridos e culpados no mais íntimo, o primeiro passo para a redenção e para a cura passa sempre pelo Amor e pelo cuidado do outro, porque o Amor e o cuidado do outro descentram-nos de nós e, por isso, têm o condão de fazer passar para 2º plano o nosso sofrimento, a nossa angústia, as nossas dúvidas, as nossas culpas, muito especialmente aquelas culpas para as quais não conseguimos o nosso próprio perdão e, em redemoinho nos afunilam no nosso próprio sofrimento, destruindo-nos…
Há um pormenor de que o realizador se serve muito bem: – uma borboleta.
Uma borboleta abandonada no chão quando uma menina da mesma idade desta foi atropelada;
Uma borboleta redemoinhando com a água despejada no ralo da pia e que aponta para o turbilhão de sentimentos que retiram a paz a José - o cozinheiro que antes do atropelamento fora um famoso e rico jogador de futebol;
Por fim um pagaio de papel em forma de borboleta, livre nos ares enquanto uma outra menina, fruto do cuidado e da amizade, das dificuldades ultrapassadas em comunhão, da dor redimida pelo Amor,  brinca na praia.
O Amor é Libertador, dador, gerador de Vida! E este filme é um HINO à VIDA! Um hino ao respeito devido a quem vive do trabalho, a quem cria laços de amor familiar e sabe alargá-los na maior das simplicidades e no acolhimento, à vida em gestação que pede que a acolham com serenidade, à vida de quem não se conforma nem foge das responsabilidades, à vida de gente normal…
 
BELLA é a VIDA! BELLA é a HISTÒRIA de uma menina linda, de 4 anos, feita de muitas estórias, de uma teia imensa de relações, alianças, acertos e desacertos, culpas, castigos, arrependimentos, REDENÇÃO…
Tantos são os acontecimentos e os rostos que se com-jugam para que cada um de nós seja o que é e como é…
BELLA é a Vida de qualquer um de nós…BELLA tem uma MÃE imensa que me remete para um OUTRO, um tal Jesus de Nazaré. Ao olhá-lo não podemos deixar de VER uma História GRAAAANDE e Santa feita também de tudo isto, uma MÃE imensa, nunca esquecida nem negada, que vem de longe, feita de Aliança e falha, culpas e castigos, exílios e regressos, Amor, cuidado, entrega, REDENÇÃO… 

“Os livros do Antigo Testamento preanunciaram a alegria da salvação, que havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos”
(da Primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco)


Glória Marques

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Como escreve e lê um cego?


  Aproveitando ainda a curiosidade de alguns leitores na questão de como os cegos usam o computador, partilho então a minha experiência pessoal como pessoa de muito baixa visão.
 
                Então como é que um cego escreve e lê?


  O método mais indicado para esse fim é sem dúvida nenhuma o Braille, mas as patologias impedem a maioria dos cegos tardios, ou pessoas de muito baixa visão de terem uma leitura de Braille produtiva. No entanto, com o avançar das novas tecnologias as opções têm-se diversificado.
  Desde à muitos anos que os computadores podem ser equipados com softwares de leitura de ecrã, reconhecimento de texto que permitem aos cegos ter a noção do que estão a escrever, os erros que cometem na redação e ter acesso a todas as áreas da informática.
  Para se iniciar essa aprendizagem é fundamental conhecer na perfeição o teclado do computador.
  A voz pode ser adaptada conforme os gostos do seu utilizador, assim como a velocidade com que nos lê os textos que aparecem no ecrã.
  A adaptação a esta tecnologia é por vezes mais complicada do que à partida pode parecer. É necessário uma coordenação entre os dedos e a audição. Só com a prática se pode ter uma utilização eficiente.
  Ao usar as duas teclas guias existentes em qualquer computador, na tecla F e na tecla J, o posicionamento correcto das mãos é fundamental.
   Os indicadores nas teclas F e J, os médios nas letras D e K, os anelares nas letras S e L e os mindinhos nas letras A e Ç. Ao posicionar as mãos assim, seguidamente temos que com os dedos da mão esquerda o indicador sobe e vai ligeiramente à direita e encontra a letra T, e se o fizer deslizar para baixo e ligeiramente para a direita encontra a letra V. Ao seguir este procedimento em relação a todos os dedos, passamos a ter consciência do posicionamento de todas as letras e depois é só praticar. Claro que existem inúmeros comandos e teclas de atalho que temos que memorizar e de colocar em prática para que a utilização seja mais fácil.
  Cada vez mais as pessoas com deficiência procuram poder ter acesso a equipamentos eletrónicos com programas específicos que lhes permita pesquisar na Internet, falar pelo Skype, utilizar o Correio Eletrónico e uma melhor utilização dos telemóveis.
   Os grandes impedimentos são ainda os preços, exorbitantes e proibidos desses programas.
 Não posso deixar de referir um programa gratuito, que se pode baixar na Internet e que está em evolução constante no sentido de fornecer aos deficientes visuais uma utilização de leitor de ecrã para computador acessível a todos. Tem a denominação de NVDA e pode ser baixado por qualquer pessoa.
   Os simples MP3 ,por exemplo, podem ser utilizados para a leitura de livros, assim como muitas colunas que possuem leitores de cartões de memória.
   
   Com a velocidade a que as novas tecnologias se têm desenvolvido, cabe-nos a nós aproveitar todas as possibilidades que elas nos podem proporcionar.

Anunciação Velho

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Falando do Coração...



“Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem.
Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem.
As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada poderás cobrir-te de flores e de frutos.
E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hasde escolher não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia espera e volta a esperar.
Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração.
Quando ele te falar, levanta-te, e vai onde ele te levar.”

Escolhi esta passagem do livro “Vai aonde te leva o coração” da Susana Tamaro porque se  chama “Partilho_Contigo” este Blog; porque esse é o meu Respirar nestes dias de mais um “recomeço” de ano, menos confiante do que gostaria, mas sereno.
Escolhi este excerto porque é essa a minha Espera, muito grata pelas pessoas que me tem acompanhado nesta aventura do crescimento pessoal e orgulhosa até, pois o maior desafio é alimentar a Esperança de que para avançar é preciso ter sabedoria para saber parar quando é preciso e às vezes até voltar atrás apanhar algo que ficou esquecido… ou não. 

Raquel Neves



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

De todos para todos


É com orgulho, vaidade e gratidão que hoje falo da importância que tem para mim todos os leitores que passam por aqui, especialmente aqueles que eu menos imaginava. Sim, há 5 anos atrás, nunca poderia imaginar que pessoas cegas pudessem usufruir deste espaço de partilha tão bem como os normovisuais. Já aqui falei de mim, da minha baixa visão e como antes também era incrédula nas minhas capacidades no mundo da informática. Tudo se resume à falta de conhecimento das possibilidades que existem para nós. É mesmo com sentimento de muita Gratidão que tenho vivido esta progressiva descoberta. O quanto já aprendi e o quanto ainda tenho a aprender com esta experiência!

Estamos sempre a aprender e o que vos quero partilhar desta vez é o seguinte:
Tendo em conta o facto de termos vários leitores cegos neste blog, os quais já demonstraram alguma frustração por não poderem usufruir das imagens que de vez em quando são aqui postadas, estou a tentar encontrar uma forma de fazer algo para que se sintam incluídos neste cantinho que pretende ser de todos para todos. A forma mais fácil de poder mostrar as imagens será através de uma descrição escrita, o que pode tornar os textos um pouco mais longas e/ou esteticamente não ficar tão bonito.

Desde já agradeço por me ajudarem a tomar consciência destas pequenas coisas que podem fazer toda a diferença no conforto destes leitores. Assim como o ter deixado, já há muito tempo, de postar música a acompanhar o texto. Uma coisa que eu também não imaginava que pudesse impedir a leitura dos deficientes visuais…

E pronto, é isto que hoje queria partilhar convosco, para que todos estejam em sintonia e se sintam em casa.
Um grande abraço,
Mila