quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Em jeito de “CRÓNICA DE CINEMA”
Fomos ao cinema mas, calma! isto não é uma crónica de cinema. Simplesmente partilho convosco algumas coisas que me saltaram juntamente com as imagens que corriam no ecrã.
BELLA é um filme de 2006 do realizador mexicano Alejandro Monteverde. Embora estreante e sem grandes meios ofereceu-nos UM GRANDE filme e, os GRANDES filmes costumam começar com uma imagem que indicia o Fim.
BELLA começa num olhar vago, absorto… um olhar que faz Memória. Um olhar que VÊ uma História compriiiiida, olhando para uma menina de 4 anos, que cresce em “estatura, sabedoria e graça” e, naquele momento, brinca na orla da espuma, molha os pezitos e corre atrás das gaivotas…
Um apontamento lindíssimo de ondas que se enrolam na areia. Todas diferentes, vão e vêm. Como na vida… Nada é linear… nem certo… nem seguro…
Mas, nem por isso eu me conformo com a frase inicial do filme “se queres que Deus se ria de ti conta-lhe os teus projectos” …
Não acredito num Deus que se ria dos meus projectos nem tenha gozo em mudar-mos. Claro que tem um projecto de Felicidade para mim e quer-me seu “parceiro” mas, o meu Deus dá-me a capacidade de projectar, decidir, escolher, assumir consequências e responsabilidades das minhas decisões do meu ir por aqui ou por ali… Também do modo como vou, da minha postura perante o que acontece para além de mim e que, de algum modo, vem ter comigo. A minha vida é uma sucessão incrível de “escolhas responsáveis”…. E, no filme, para mim, isto fica bem claro.
MAS… não poucas são as vezes em que nos centramos no nosso “ter e poder”…
Essa nossa omnipotência pode matar e matar-nos de muitas maneiras. E quando o “inesperado” acontece e nos deixa feridos e culpados no mais íntimo, o primeiro passo para a redenção e para a cura passa sempre pelo Amor e pelo cuidado do outro, porque o Amor e o cuidado do outro descentram-nos de nós e, por isso, têm o condão de fazer passar para 2º plano o nosso sofrimento, a nossa angústia, as nossas dúvidas, as nossas culpas, muito especialmente aquelas culpas para as quais não conseguimos o nosso próprio perdão e, em redemoinho nos afunilam no nosso próprio sofrimento, destruindo-nos…
Há um pormenor de que o realizador se serve muito bem: – uma borboleta.
Uma borboleta abandonada no chão quando uma menina da mesma idade desta foi atropelada;
Uma borboleta redemoinhando com a água despejada no ralo da pia e que aponta para o turbilhão de sentimentos que retiram a paz a José - o cozinheiro que antes do atropelamento fora um famoso e rico jogador de futebol;
Por fim um pagaio de papel em forma de borboleta, livre nos ares enquanto uma outra menina, fruto do cuidado e da amizade, das dificuldades ultrapassadas em comunhão, da dor redimida pelo Amor, brinca na praia.
O Amor é Libertador, dador, gerador de Vida! E este filme é um HINO à VIDA! Um hino ao respeito devido a quem vive do trabalho, a quem cria laços de amor familiar e sabe alargá-los na maior das simplicidades e no acolhimento, à vida em gestação que pede que a acolham com serenidade, à vida de quem não se conforma nem foge das responsabilidades, à vida de gente normal…
BELLA é a VIDA! BELLA é a HISTÒRIA de uma menina linda, de 4 anos, feita de muitas estórias, de uma teia imensa de relações, alianças, acertos e desacertos, culpas, castigos, arrependimentos, REDENÇÃO…
Tantos são os acontecimentos e os rostos que se com-jugam para que cada um de nós seja o que é e como é…
BELLA é a Vida de qualquer um de nós…BELLA tem uma MÃE imensa que me remete para um OUTRO, um tal Jesus de Nazaré. Ao olhá-lo não podemos deixar de VER uma História GRAAAANDE e Santa feita também de tudo isto, uma MÃE imensa, nunca esquecida nem negada, que vem de longe, feita de Aliança e falha, culpas e castigos, exílios e regressos, Amor, cuidado, entrega, REDENÇÃO…
“Os livros do Antigo Testamento preanunciaram a alegria da salvação, que havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos”
(da Primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco)
Glória Marques
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1 comentário:
Obrigada por partilhar! Isto ajuda-nos a refletir e a encontrar sentidos de vida mais alargados. Obrigada mais uma vez!
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