domingo, 14 de junho de 2009

Uma parábola sobre a Bíblia


Há alturas em que a vida não é fácil para quase ninguém…
O Gervásio viveu numa altura dessas. O dinheiro era à míngua, o futuro não sorria a ninguém e as promessas de melhoras não pareciam nunca passar disso mesmo…

De qualquer modo, o Gervásio era feliz. Apesar de ter nascido numa família pobre, sabia muito bem o que era ser amado. O pão não sobejava em casa, mas ainda assim havia sempre espaço para mais alguém que precisasse.

Já rapaz feito, o amor pregou-lhe mais uma das suas…
Apaixonou-se pela Teresa, vizinha lá da terra que desde pequeno conhecia.
Um dia lá lhe disse…
E um dia lá se casaram…
Depois, chegou o dia em que nasceu o primeiro filhote…
E houve festa naquela casa onde os móveis não eram de luxo mas os rostos reluziam de serenidade e as pessoas se amavam.
O Gervásio e a Teresa amavam-se de verdade.

Mas a vida estava cada vez mais difícil…
As rendas subiam, as coisas todas encareciam e o que ganhavam nos empregos já não dava para o necessário…

Um certo dia, o Gervásio recebeu uma proposta quase irrecusável: um emprego na França, durante um ano, ao fim do qual receberia o correspondente a quase vinte anos de trabalho no emprego em que estava!
Conversou com a Teresa e decidiram os dois que, apesar de muito difícil, aceitar era o melhor a fazer naquele momento. Em nome deles, do filhote mais pequeno e do pequenino que já estava na barriguita da mãe…

Com uma lágrima teimosa que não conseguia segurar, o Gervásio lá se despediu da Teresa e do seu pequenote e seguiu numa manhã de Primavera para a França.

Passaram-se umas semanas, e ao longo de todos os dias o Gervásio pensava na sua Teresa, nos seus pequenos, em como queria estar com eles, escutá-los, contar-lhes tudo o que tinha visto na França, dizer-lhes o quanto os amava…
Mas como?!
O Gervásio pouco mais sabia escrever que o seu nome…
E continuava com o desgosto de remoer a saudade no silêncio do seu coração.
Mas apenas por uns dias, porque…
Numa noite, já deitado, resolveu escrever uma carta: “Saia o que sair!”, disse ele…
Levantou-se de um pulo, agarrou num papel e numa caneta, e começou a tentar escrever algo parecido com “Querida Teresa”…
Gatafunhou, com uma péssima caligrafia uma coisa assim: “crida trêza”…
E, animado pela novidade, lá continuou empolgado, contando as coisas bonitas que já vira em França, os momentos mais engraçados e também os mais complicados da viagem, as coisas que ainda esperava fazer e descobrir… e, acima de tudo, com a sua caligrafia quase ilegível e com o seu português arranhado, dizia à Teresa o quanto a amava, contava-lhe como sonhava tantas vezes com ela e com os filhos, segredava-lhe as ternuras mais fundas do seu coração apaixonado…

A primeira carta que escreveu na vida saiu-lhe muito mais longa do que esperava!
No outro dia, logo pela manhã, enviou-a.
Passados dias, a casa do Gervásio e da Teresa encheu-se de sol quando a carta chegou.
Teresa leu-a com os olhos molhados de emoção e saudade…
Tendo que soletrar quase cada palavra para lhe decifrar o sentido, ainda assim, palavra a palavra, sentiu-se abraçada nos braços do seu amor. Cada palavra era um beijo seu, cada frase era um abraço!
Teresa guardou a carta como se de um tesouro se tratasse. E era, mas só ela o sabia…

Gervásio, entretanto, escreveu outra carta, e depois outra, e outra…
E ia melhorando carta após carta, escrevendo-as cada vez mais perfeitas, corrigindo muitos erros que abundavam em anteriores, completando coisas que já tinha dito…
Quase escrevia uma carta por dia!
Teresa ia-as guardando, sempre juntas, as cartas do seu amor. As suas cartas de amor…

Um certo dia em que o filho mais novo deixou uma janela aberta, quando a Teresa abriu a porta para entrar em casa a corrente de ar foi tão forte que todas as papeladas que estavam em cima do móvel da sala voaram pela janela.
A maior parte eram cartas do Gervásio!
A Teresa fechou a porta, correu à janela, mas era muito tarde… as cartas voavam ao sabor do vento que naquele dia estava especialmente forte.
Nunca mais as veria…
Sentou-se no sofá consolando-se a si própria com a certeza de que o Gervásio continuaria a escrever-lhe e que o vento levara as cartas mas não o amor que nelas estava inscrito.

Entretanto, nos quatro cantos da cidade, muitas pessoas começaram a encontrar folhas de papel escritas à mão pelas ruas, às portas de casa, nos passeios, nos telhados…
Eram as cartas do Gervásio!
A maior parte das pessoas ao pegar nas cartas apenas reparava que estava escrita num papel muito amarelado que não era papel próprio para escrever cartas, com uma dactilografia péssima, quase incompreensível e uma linguagem muitíssimo imperfeita.
O que faziam?
Ou a deixavam cair novamente onde estava, ou a deitavam ao lixo.

No entanto, ainda foram alguns os que tentaram ler as cartas que encontraram.
Mas, ao ler, não compreendiam o que aquelas palavras queriam dizer…
Percebiam uma ou outra palavra, mas não o sentido das frases.
É que o Gervásio falava muito das coisas que tinha visto e lhe tinham acontecido usando muitos exemplos e recordações de outras experiências que fizera e lugares que conhecera com a Teresa.
Eram os segredos do seu amor…
E as pessoas não entendiam esses segredos porque não conheciam a história de amor do Gervásio e da Teresa…

Houve apenas uma ou duas pessoas que perceberam as cartas que encontraram.
Sabiam de amor e reconheceram as suas próprias experiências no jeito simples e imperfeito de dizer o amor que estava naquelas cartas.
Mas foram muito poucos…
Porque só podiam entender as cartas do Gervásio à Teresa quem estivesse disposto a lê-las com a gramática do coração e o dicionário do amor.
Esses eram capazes de corrigir as imperfeições, desvendar o sentido oculto das palavras mal escritas e decifrar o significado de algumas palavras já meio “afrancesadas” no meio do texto…
Esses eram capazes de chegar ao segredo que se escondia sob a aparência rude daquelas cartas mal escritas…
E o segredo era:
“Teresa, amo-te! Sinto a tua falta. Penso em ti constantemente!”

Esses sim, percebiam…

Porque só com amor se poder ler o que por amor se escreveu!

2 comentários:

Rute disse...

Bem palavras para quê.
Eu que trabalho com crianças que têm os pais tão perto e ao mesmo tempo muito mais distantes que a França...
Como desejo dar-lhes (no tempo em que estão comigo) aquilo que lhes falta em casa compreensão, atenção, carinho, afecto. Não falo de Amor porque não sei que lhes dou isso, sinceramente acho que não...
Que lindo texto Mila. OBRIGADO pela tua partilha.
Beijinhos Rute.

Unknown disse...

Uaaaaauuuuuuuu!
Que texto bonito... e tanto significado que tem.

Uma boa partilha para começar o dia.

Bjinhos
Jorge & Susana