Desta vez, o texto foi tirado do blog Derrotar Montanhas. E na próxima? Não sei, mas já tenho alguns em mente, só não sei é se os vou encontrar, devido já os ter lido há muito tempo ehehehehe!
"Desta janela em que escrevo, vejo os comboios a passar lá em baixo, não muito longe de mim. Mas daqui quase não os escuto. No entanto, há casas que estão mesmo coladas à linha férrea. Antes, admirava-me como conseguiriam essas pessoas dormir. Agora já não. Porque falei com algumas e revelaram-me o segredo: “Nos primeiros dias ninguém pára, mas depois a gente habitua-se, já nem se dá conta”, disseram-me elas.Eis a maravilhosa capacidade de nos habituarmos.
Mas depois, pus-me cá a pensar na nossa vida, e prefiro chamar-lhe assim: eis a perigosa capacidade de nos habituarmos. Porque o barulho dos comboios é como tudo: quando nos conseguimos habituar, deixamos de dar conta.
E vejo que nos costumamos habituar a coisas demais...
O hábito faz-nos perder a atenção dos acontecimentos, rouba-nos o gozo das novidades, e o sabor irrepetível dos dias; impede-nos de crescer.
As pessoas habituam-se a viver juntas, e deixam de prestar atenção umas às outras.
Um casal habitua-se ao casamento, e perdem o gozo do namoro. Esquecem a necessidade de se seduzir todos os dias. Habituam-se! E esquecem-se que têm que se pedir um ao outro de novo em casamento, em cada manhã.
Deixamos cair até a nossa Fé na rotina do hábito, e tudo se vai tornando estéril. Vamos cumprindo rituais, aos quais chamamos obrigações e deveres. Vamos-nos habituando a cumpri-los, mas sem percebermos verdadeiramente para que servem.
Habituamo-nos a ser o que somos, e deixamos de sonhar em ser mais.
Habituamo-nos a um ritmo quotidiano a que chamamos vida, e deixamo-nos engolir por ele. Habituamo-nos às correrias,
habituamo-nos às inutilidades sempre tão urgentes,
habituamo-nos a andar tristes.
Habituamo-nos a encher a boca de queixas e lamentos. E assim, deitamos fora a vontade de mudar e viver de novo cada dia que nos calha em sorte.
E depois… depois ainda somos capazes de dizer, com o rosto triste e um encolher de ombros desolado: “É a vida! Temos que nos habituar!”
Não, não, amigo!
Para ser verdadeiramente Vida, tens é que te desabituar!
Shalom"
1 comentário:
Muito obrigada Mila, por partilhares esta reflexão connosco!
Fatima
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