terça-feira, 3 de maio de 2011

Se Deus Ressuscitou Jesus, então...




Hoje Partilha Contigo... PAULA CRISTINA



Conheci a Paulinha na ACAPO. É uma menina que nos cativa pela sua genuinidade e ternura. Aparentemente parece frágil, mas de uma força interior inspiradora... Para vos dar um exemplo, ela aprendeu o braille num mês! E há pouco tempo começou a ter aulas de TIC e já manobra o teclado como poucos norma-visuais! :) Desafiei-a a partilhar a sua história e, na sua mais pura simplicidade, escreveu isto:

Eu era uma criança traquina e com cinco anos tive um acidente doméstico que provocou um glaucoma e catarata. Os médicos só encontraram uma solução: retirar o olho. Fui logo operada. Quando acordei da anestesia, tirei o penso e reparei que não tinha um olho! Perguntei logo às outras crianças se elas também só tinham um olho! Entretanto, chegou a enfermeira e levou-me ao médico que me explicou que ía ter uma vista nova, mas a vista nova era um olho de vidro.

O trabalho ficou tão bem feito que ninguém notava, mas os meus pais tinham um grande desgosto....

Entretanto, entrei para a escola como as outras crianças, só que a minha professora por ter um olho de vidro não me considerava uma criança igual às outras. Por isso, em vez de ir para o recreio, ficava na sala a brincar com uma boneca e a fazer desenhos. Durante dois anos foi assim! E durante esses dois anos fiquei na primeira classe. Por ter um olho de vidro estava sempre a fazer desenhos que não eram iguais aos desenhos das outras crianças, e também elas faziam pouco de mim, chamavam-me a "menina da professora" e outros nomes.

Graças a Deus que a minha professora foi para a reforma e tive uma professora nova. A partir daí já fiz tudo o que as outras crianças faziam. Ía para o recreio, brincava com elas e estudávamos juntas. Apesar disto tudo, sempre senti que era igual às outras crianças. Só ficava muito triste quando o meu pai dizia, a qualquer pessoa, que o grande desgosto dele era ter uma filha com um olho de vidro. Isso nunca vou esquecer, acho que é uma marca que fica para o resto da minha vida.

Mas nem tudo é mau...

Aos 14 anos comecei a namorar com o Iglésias. O AMOR DA MINHA VIDA com quem vivi a minha juventude, com quem casei e sou muito feliz.

Como se já não bastasse ter só uma vista, depois de casada tive um descolamento de retina. Fui operada duas vezes no Hospital de S.João. No entanto, na tentativa de melhor recuperação, o meu marido perguntou ao médico se em Coimbra havia outras possibilidades. O médico propôs a hipótese de repetir a operação numa clínica em Londres... Não pensámos duas vezes, ainda que, sem dúvida, implicasse um grande esforço económico... Não foi nada fácil, mas a esperança que sentimos superou tudo e valeu a pena!... Operaram-me três vezes e fiquei a ver dois décimos. Com essa capacidade visual, voltei a poder fazer tudo.

Criei o meu sobrinho e foi a coisa mais bonita que me aconteceu. Agradeço muito ao meu marido, ao meu sobrinho, e também aos meus AMIGOS. São eles que me dão muita força para continuar a viver feliz.

Durante doze anos a minha visão manteve-se igual. Depois ganhei glaucoma e comecei a perder visão porque a tensão estava muito alta, afectando a córnea e o nervo óptico.

Em 2009, entrei para a ACAPO. Tive acesso às actividades da vida diária como: a aprendizagem do reconhecer o dinheiro, identificar texturas e cheiros, truques para funcionar com os electrodomésticos, posicionamento do corpo ao cozinhar, métodos para reconhecer peças de roupa, passar a roupa a ferro e todo um sem-número de pequenas dicas para serem utilizadas no dia-a-dia. Também tive aulas de mobilidade com o auxílio de uma bengala, na qual me adaptei perfeitamente. Aceitei-a com agrado na perspectiva de ser independente. Com as aulas de Braille tive uma experiência maravilhosa pela sensação de poder voltar a ler de novo. Também nas aulas de TIC começo a descobrir uma dimensão de possibilidades bastante abrangentes, graças às novas tecnologias.

Às terças-feiras temos trabalhos manuais. Também é um espaço muito interessante: pela interacção do grupo, da partilha de conhecimentos e truques nas coisas que aprendemos, do exercitar o tacto com a finalidade de desenvolver a sensibilidade dos dedos para nos facilitar a aprendizagem na leitura do braille e escrita do mesmo. E sobretudo, pelos laços de amizade que nos une.
Sinto um grande carinho por cada um, mas em especial, uma gratidão enorme pelo apoio recebido da Psicóloga e da Professora de braille e de TIC. MUITO OBRIGADA ÁS DUAS por me ajudarem a levantar e mostrar-me que afinal posso VER...

Em casa sou autónoma em todas as tarefas domésticas.

Tenho uma vida normal e sou muito feliz.

O que me deixa mais feliz ainda, é que ainda posso ver o rosto das pessoas que gosto.

Beijinhos
Paula Cristina

1 comentário:

Ana Patricia disse...

"O que me deixa mais feliz ainda, é que ainda posso ver o rosto das pessoas que gosto." Esta frase fez-me PARAR...

O0brigada Paula, pela lição de VIDA que me acabaste de dar.