domingo, 3 de março de 2013
Olhos emprestados
“Eu empresto-lhe os meus olhos e ele empresta-me os braços”. Ouvi esta expressão de uma minha amiga que tem o marido cego, depois de eu lhe ter perguntado se o marido gostou da noite de poesia da qual tínhamos desfrutado juntos. Nessa noite, a acompanhar a recitação dos textos, havia uma dinâmica a propósito do tema que o enriquecia ainda mais! Dava para sentir o empenho e o trabalho de quem preparou com muito carinho. Mas…
Nem todos podem ver o fruto destas coisas com os seus próprios olhos a não ser que lhos emprestem. Eu explico: a minha amiga tem sempre o cuidado de transmitir por audiodescrição tudo o que se vai passando nestes e noutros contextos e assim, o marido vai imaginando e acompanhando tudo ao seu jeito deliciando-se da mesma maneira que os outros. São estes olhos que lhes são emprestados e foram estes olhos que o fizeram regressar a casa feliz, contente e com vontade de voltar.
Graças a Deus vamos tendo estes exemplos que nos podem ajudar a estar mais atentos, despertos em gestos simples e essenciais para o outro. Gestos que podem evitar a ansiedade e até um certo desconforto de quem é cego ou amblíope. Coisas com as quais muitas vezes não estamos sensibilizados por desconhecer a verdadeira realidade dos obstáculos que criamos sem saber. Surpresas desagradáveis como, por exemplo, mudar o cenário a um espaço (que porventura já é bem conhecido por essas pessoas) e apagarem as luzes antes de lhes darem a oportunidade de o explorar antes. Claro que a questão da luz é indiferente para os cegos, mas para quem ainda vê alguma coisa faz toda a diferença.
Isto são apenas alguns exemplos de pequenos porMENORES que se tornam porMAIORES na vida destas pessoas.
Obrigada amiga por me proporcionares esta reflexão. Vamos assim caminhando de mãos dadas e aprendendo a usar melhor os “óculos do amor”.
Emília Pinto
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