O
ano passado, eu e o meu marido decidimos percorrer o caminho de Valença a
Santiago de Compostela e, recentemente, seguimos de Santiago a Finisterra.
Fazer
o caminho de Santiago é uma experiencia única e maravilhosa. Da primeira experiência
tudo era novo para mim mas, desta vez, descobri que tudo continua a ser novo. É
sempre diferente, são outros dias, outros acontecimentos, aventuras, novos
encontros, novas histórias partilhadas, novos desafios, novas conquistas, novas
surpresas… Sobretudo a liberdade de sermos livres que o próprio caminho nos faz
vivenciar.
Desta vez ainda menos coisas levamos
na mochila, menos nos preocupamos com o que havíamos comer no dia seguinte,
onde havíamos dormir... “Não vos
preocupeis com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas próprias
dificuldades. A cada dia basta o seu peso.” (Mateus 6.34) Nunca isto me fez tanto sentido como naqueles 5 dias.
Concretamente experienciei situações que me levaram a fazer esta reflexão que foi
uma grande aprendizagem para nós.
Este
caminho permite-nos repensar a nossa vida no bom e menos bom pela beleza que
tem e pelas dificuldades do mesmo. Há nele uma magia inexplicável, mesmo quando
os pés não queriam obedecer, quando os ombros arqueavam, as ancas e os joelhos
doíam, nada disto me fazia desanimar. Nunca senti vontade de desistir. Mais à
frente havia sempre algo que nos motivava a continuar: uma linda paisagem, um
peregrino que passa por nós e nos dá uma palavra de conforto, um senhor que mais
além está na beira do caminho a oferecer limonada, outro mais adiante conta-nos
uma história incrivelmente inspiradora… e logo parece que as forças voltam para
vencer aquela subida “Rompe Pernas”que mais à frente nos depara. A seguir mais
uma descida de caminho bastante irregular cheio de pedras e pedregulhos soltos
que nos massacram ainda mais os músculos, enfim... Mas de mãos dadas lá fomos
os dois caminhando passo a passo e rezando a vida até ao albergue para tomarmos
um merecido banho e descansar!
Com
os encontros e reencontros que fazíamos nos albergues, dava-nos a conhecer partilhando
histórias, culturas, credos…entre portugueses, ingleses, espanhóis, alemães,
holandeses, franceses, italianos, neozelandeses, marroquinos, japoneses, argentinos,
etc. Todos diferentes mas com o mesmo espírito de fraternidade e união. Cada um
atento ao outro. Estou-me a lembrar por exemplo de um rapaz de Barcelona que
queria disponibilizar-me a cama e dormir ele no chão, por já não haver camas
livres e ver-me menos bem fisicamente. Assim outros exemplos de gestos
semelhantes foram acontecendo.
Normalmente
na cozinha dos albergues cada um se organiza a fazer o jantar para si ou para
mais um ou dois que entretanto se conheceram, mas desta vez foi diferente: num dos
dias um marroquino tomou a iniciativa de preparar uma deliciosa “pasta” com
atum e fizemos festa todos juntos. Noutro albergue onde nos alojamos no dia
seguinte, já é habitual o jantar e pequeno-almoço ser em comum. Os dois hospitaleiros
responsáveis por esse albergue, por opção voluntária, fazem as suas férias
acolhendo os peregrinos não fazendo preço, dando cada um o que pode e o que entende.
Este albergue funciona com a generosidade e o carinho de cada um. Sentimo-nos
em casa. Fomos muito bem acolhidos pelos hospitaleiros e também pelos
peregrinos que entretanto já tinham chegado, parecia mesmo uma família que nos
esperava. Logo nos libertaram da mochila, nos deram água fresca e nos encheram
de mimos. Enquanto tomamos banho e lavamos a roupa já todos preparavam o
jantar. Ali todos ajudam e ainda há tempo para descansar, ler, ouvir musica,
dançar, confraternizar na mesa do jardim… cada um sentia-se plenamente à
vontade como se estivessem em casa. Comemos todos á mesma mesa e brindamos à
saúde em todas as línguas lá referidas. Pernoitamos no jardim a cantar acompanhado
do som da guitarra tocada por um italiano. Naquela noite foi assim mas, por
exemplo, na véspera o céu estava estrelado e os peregrinos que lá passaram
olhavam as estrelas fazendo uma meditação.
Muita coisa aconteceu que não se pode transmitir
por palavras. O que levamos e trazemos no coração só sabe quem experimenta.
Caminhar e fazer encontro com gente simples e
bonita enriquece-nos os sentidos e tudo em cada momento da nossa vida ganha
outro sabor.
Queremos
continuar a fazer Caminho e Encontro!
Emília
Pinto
1 comentário:
Fazer Caminho e Encontro parece que é mesmo essa a nossa ÚNICA VOCAÇÃO !
verificamo-lo todos os dias e várias vezes ao dia...
quando ISSO não acontece, e os encoentros saem desencontrados" ficamos com a sensação estranha e triste de quem "não sai do sítio"...
muito bonita a tua partilha, Mila , embora todos saibamos que não há palavras que cheguem para dizer a Felicidade nem o Amor nem nada daquilo que é verdadeiramente GRANDE e acontece DENTRO...
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