sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Caminho e a Liberdade de sermos livres



  


O ano passado, eu e o meu marido decidimos percorrer o caminho de Valença a Santiago de Compostela e, recentemente, seguimos de Santiago a Finisterra.

Fazer o caminho de Santiago é uma experiencia única e maravilhosa. Da primeira experiência tudo era novo para mim mas, desta vez, descobri que tudo continua a ser novo. É sempre diferente, são outros dias, outros acontecimentos, aventuras, novos encontros, novas histórias partilhadas, novos desafios, novas conquistas, novas surpresas… Sobretudo a liberdade de sermos livres que o próprio caminho nos faz vivenciar.

Desta vez ainda menos coisas levamos na mochila, menos nos preocupamos com o que havíamos comer no dia seguinte, onde havíamos dormir... “Não vos preocupeis com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas próprias dificuldades. A cada dia basta o seu peso.(Mateus 6.34) Nunca isto me fez tanto sentido como naqueles 5 dias. Concretamente experienciei situações que me levaram a fazer esta reflexão que foi uma grande aprendizagem para nós.

Este caminho permite-nos repensar a nossa vida no bom e menos bom pela beleza que tem e pelas dificuldades do mesmo. Há nele uma magia inexplicável, mesmo quando os pés não queriam obedecer, quando os ombros arqueavam, as ancas e os joelhos doíam, nada disto me fazia desanimar. Nunca senti vontade de desistir. Mais à frente havia sempre algo que nos motivava a continuar: uma linda paisagem, um peregrino que passa por nós e nos dá uma palavra de conforto, um senhor que mais além está na beira do caminho a oferecer limonada, outro mais adiante conta-nos uma história incrivelmente inspiradora… e logo parece que as forças voltam para vencer aquela subida “Rompe Pernas”que mais à frente nos depara. A seguir mais uma descida de caminho bastante irregular cheio de pedras e pedregulhos soltos que nos massacram ainda mais os músculos, enfim... Mas de mãos dadas lá fomos os dois caminhando passo a passo e rezando a vida até ao albergue para tomarmos um merecido banho e descansar!

Com os encontros e reencontros que fazíamos nos albergues, dava-nos a conhecer partilhando histórias, culturas, credos…entre portugueses, ingleses, espanhóis, alemães, holandeses, franceses, italianos, neozelandeses, marroquinos, japoneses, argentinos, etc. Todos diferentes mas com o mesmo espírito de fraternidade e união. Cada um atento ao outro. Estou-me a lembrar por exemplo de um rapaz de Barcelona que queria disponibilizar-me a cama e dormir ele no chão, por já não haver camas livres e ver-me menos bem fisicamente. Assim outros exemplos de gestos semelhantes foram acontecendo.  

Normalmente na cozinha dos albergues cada um se organiza a fazer o jantar para si ou para mais um ou dois que entretanto se conheceram, mas desta vez foi diferente: num dos dias um marroquino tomou a iniciativa de preparar uma deliciosa “pasta” com atum e fizemos festa todos juntos. Noutro albergue onde nos alojamos no dia seguinte, já é habitual o jantar e pequeno-almoço ser em comum. Os dois hospitaleiros responsáveis por esse albergue, por opção voluntária, fazem as suas férias acolhendo os peregrinos não fazendo preço, dando cada um o que pode e o que entende. Este albergue funciona com a generosidade e o carinho de cada um. Sentimo-nos em casa. Fomos muito bem acolhidos pelos hospitaleiros e também pelos peregrinos que entretanto já tinham chegado, parecia mesmo uma família que nos esperava. Logo nos libertaram da mochila, nos deram água fresca e nos encheram de mimos. Enquanto tomamos banho e lavamos a roupa já todos preparavam o jantar. Ali todos ajudam e ainda há tempo para descansar, ler, ouvir musica, dançar, confraternizar na mesa do jardim… cada um sentia-se plenamente à vontade como se estivessem em casa. Comemos todos á mesma mesa e brindamos à saúde em todas as línguas lá referidas. Pernoitamos no jardim a cantar acompanhado do som da guitarra tocada por um italiano. Naquela noite foi assim mas, por exemplo, na véspera o céu estava estrelado e os peregrinos que lá passaram olhavam as estrelas fazendo uma meditação.

Muita coisa aconteceu que não se pode transmitir por palavras. O que levamos e trazemos no coração só sabe quem experimenta.

Caminhar e fazer encontro com gente simples e bonita enriquece-nos os sentidos e tudo em cada momento da nossa vida ganha outro sabor.

Queremos continuar a fazer Caminho e Encontro!

Emília Pinto

1 comentário:

Unknown disse...

Fazer Caminho e Encontro parece que é mesmo essa a nossa ÚNICA VOCAÇÃO !
verificamo-lo todos os dias e várias vezes ao dia...
quando ISSO não acontece, e os encoentros saem desencontrados" ficamos com a sensação estranha e triste de quem "não sai do sítio"...
muito bonita a tua partilha, Mila , embora todos saibamos que não há palavras que cheguem para dizer a Felicidade nem o Amor nem nada daquilo que é verdadeiramente GRANDE e acontece DENTRO...