segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Hoje Partilha Contigo... ANUNCIAÇÃO


Sinto um enorme privilégio por conhecer a Anunciação! A experiência de vida que ela própria testemunha toca-me de uma forma muito especial!!!

O ENCARAR DO SABER…

A felicidade de não se ter conhecimento dos problemas quando somos demasiados jovens é uma das coisas de que tenho plena consciência que desfrutei. Tenho memórias muito vivas de quando tinha quatro ou cinco anos e apesar de muitas vezes ir de encontro ás coisas, bater com a cabeça nas esquinas das portas, de brincar debaixo de uma mesa e levantar-me sem ter a noção de que ia bater de encontro á mesma e até de cair muitas vezes sem razão aparente. Com todos esses percalços muitas vezes fui parar ao hospital para me ser suturada a testa ou o couro cabeludo. Nada disso me fazia pensar na possibilidade de não ver bem, encarava com normalidade todos esses factos.
Foi um período de felicidade absoluta pois não fazia ideia de que as outras pessoas que me rodeavam tinham outro tipo de visão diferente da minha. Nessa altura eu pensava que o que conseguia ver era igual ao que os meus irmãos viam, que todas as outras pessoas viam as coisas desfocadas e que se me aproximasse delas já as via melhor e por isso não consumia a minha cabeça com semelhantes pensamentos.
Claro que me alcunhavam de desastrada, de distraída, achavam mesmo que eu era uma criança com um défice de atenção, ralhavam-me imenso para eu prestar mais atenção para onde ia mas nunca me foi passada a mensagem de que era diferente das outras crianças nesse período da minha vida, até porque penso mesmo que nem os meus pais faziam a mínima ideia do que estava a acontecer comigo a nível da visão.
Quando entrei para a escola primária, quase com seis anos de idade, no início a professora colocou-me a alcunha de preguiçosa, pois eu não conseguia ver para o quadro preto apesar de estar sentada nas carteiras da primeira fila da salas de aula e de deitar a cabeça na dita carteira quando tinha de escrever alguma coisa ou para ver o que a professora me tinha escrito na lousa que usávamos para fazer os trabalhos na altura em que frequentei a escola. Nem nessa altura eu tive a noção de que algo de diferente se passava com os meus olhos, como não tinha oportunidade de conviver com muitas crianças por convicção dos meus pais de que isso não fazia falta mas por vezes ainda era prejudicial, eu nunca tinha tido grande oportunidade de fazer essas comparações até essa altura em que passei a conviver com todas as meninas que estavam na sala de aulas comigo e as outras todas que frequentavam a escola nos outros anos lectivos.
Inesperadamente a minha professora mandou chamar os meus pais á escola e informou-os de que tinha a certeza de que eu sofria de uma qualquer deficiência visual e que seria aconselhável dirigirem-se a um oftalmologista para uma consulta para esse problema me ser diagnosticado. Nessa altura com quatro filhos para sustentar e com os parcos salários de que dispunham, os meus pais fizeram o esforço de me encaminhar para um oftalmologista particular, pois já naquela altura as consultas de especialidade eram muito demoradas e eles não quiseram correr o risco de que o problema se agravasse por falta de assistência médica.
Aí sim, foi-me diagnosticada a Miopia congénita patológica, o estigmatismo e a ambliopia do olho esquerdo com que eu já tinha nascido mas que até essa altura ninguém tinha tido conhecimento. O problema era muito grave e progressivo, foi o que o médico disse aos meus pais e mais tarde aos oito anos disseram que antes dos dezoito anos de idade estaria cega. Eu passei a ter de usar uns óculos pesadíssimos e com as lentes que pareciam dois fundos de garrafa, mas assim lá ia conseguindo ver o suficiente para acompanhar as colegas de aula e ser uma boa aluna. A partir dessa altura passei a frequentar as consultas da especialidade de oftalmologia no posto de Nova Sintra no Porto, e durante todos os anos em que lá fui atendida a única coisa que me foi feita foi o alterar das graduações nos óculos para actualizar a graduação e dizerem que nada mais havia a fazer pela minha vista.
Com todos estes condicionantes na visão, passei a sentir-me inferiorizada em relação a todas as outras pessoas com quem convivia. Afastava-me das colegas de turma quando elas brincavam á bola ou ao saltar ás cordas, deixei de ser convidada a participar nessas ou outras actividades, fechava-me cada vez mais em mim própria, e isso depois teve o seu retorno por parte delas, era gozada permanentemente por quase todas as colegas, passei a refugiar-me junto dos adultos, empregadas ou professoras da escola que era onde me sentia mais segura e tentava ser apreciada sendo boa aluna e estando sempre pronta a ajudar no que era necessário.
O medo foi-se apoderando da minha pessoa, tinha medo de correr ou saltar e partir os óculos, de não ver a bola antes de ela me bater na cara, de me sentir pouco à-vontade junto das outras pessoas por usar uns óculos tão horríveis que ocultavam completamente os meus grandes e brilhantes olhos castanhos. Das experiências mais traumatizantes de que me lembro, foram uma ida para a Colónia de férias e no dia que cheguei cair imediatamente e ter de ser socorrida no posto de emergência do local para ser suturada, e de numa das saídas na noite de S. João em que uma pessoa me bateu com o martelinho na cabeça, fez-me cair os óculos que se estilhaçaram no chão e depois se foi embora antes mesmo que os meus pais tivessem tempo de lhe pedir contas. Claro que tiveram que pagar os óculos e essa despesa foi muito pesada. Estes factos e muitos outros que foram ocorrendo iam afectando a minha auto-confiança.
Provavelmente as coisas não seriam tão horríveis se o meu feitio não fosse o de uma criança tão fechada para tudo o que não fosse necessário para manter os meus pais felizes e sem mais encargos do que aqueles que eles já tinham na altura.
Sempre adorei ler e esse hábito passou a fazer parte da minha ideia de isolamento, as outras colegas não entendiam como é que eu gostava de ler livros sem parar, quando elas só liam quando eram obrigadas pela professora e mais uma vez fui apelidada de esquisita por não fazer as coisas que as outras faziam mas sim o que os adultos apreciavam que eu fizesse.
O meu estado de espírito não era propriamente dos melhores e depois de entrar para o ciclo preparatório as coisas ainda pioraram. Eu tinha pena de não conseguir ver o que os outros viam, por vezes pensava que devia ser um castigo qualquer por algo que eu tivesse feito, mas por melhor que me portasse a visão não melhorava, pelo contrário cada vez que ia ao oftalmologista as notícias eram sempre que estava a piorar rapidamente e que não tardaria a cegar.
Acredito que não houvesse grande informação na altura sobre a minha doença, mas era terrível para mim de todas as vezes que lá ia e a sentença me era confirmada mais uma vez. Naquela altura nem sequer sabia realmente qual o meu problema de visão, tinha a consciência de que via as coisas como se tivesse uma cortina de fumo permanentemente á frente dos meus olhos, só conseguia ver as coisas com maior definição quando as aproximava da minha cara ou a média distância quando semi-cerrava os meus olhos e forçava a vista para ver melhor o que me rodeava. Não fazia ideia de que isso é muito frequente nos míopes com graduações muito altas, mas tentava-me adaptar o mais possível á visão que possuía na altura e fazer as tarefas o mais naturalmente que me era possível para não chamar as atenções para mim.
Passei a tentar ver e ler o mais que me era possível pois pensava que tinha pouco tempo para apreciar as coisas belas da vida e os livros e filmes que eu tanto gostava de ler e ver. Na altura não sabia que existiam maneiras diferentes para ler um livro ou executar outras tarefas mesmo estando cega, por isso tinha tanta urgência em devorar tudo o que me era proporcionado.
A sensação de nem sequer conseguir ver as pessoas que eu conhecia bem a apenas poucos metros de distância, de não identificar uma colega ou empregada que passasse por mim do outro lado da rua era tão frustrante que a partir de certa altura optei por simplesmente olhar sempre em frente e não como todas as outras pessoas que olhavam em redor, mas com isso eu protegia-me de todos os que pensavam que eu as estava a ver e não falava ou Cumprimentava por minha iniciativa ou má educação. Durante muitos anos essa foi a minha opção e por isso mesmo as pessoas que não me conheciam tão a fundo pensavam que era uma criatura antipática e pouco sociável.
Felizmente passaram muitos anos antes de cegar, e não foi pela doença em si mas por um acidente estúpido que me feriu olho direito, aquele que tinha alguma visão.
Provavelmente por toda a vida ter esperado inconscientemente por esse momento, na altura em que fiquei sem ver a reacção foi quase imediata e tentei arranjar soluções para os problemas que me foram surgindo naturalmente e ao contrário da minha família penso que encarei com relativa naturalidade o que tinha sucedido.
É evidente que quando me recuperaram parte da visão fiquei felicíssima, mas também tenho plena consciência de que pode ser um estado provisório e estou-me a reabilitar de maneira a ser capaz de ser autónoma mesmo numa situação de cegueira de novo.
Por incrível que pareça não é das coisas que mais me assusta, o ficar cega, tenho vários exemplos de pessoas com a vida bem resolvida e que cegaram recentemente e que me dão alento para tudo o que provavelmente ainda terei que enfrentar.
Se quando era criança ou adolescente me sentia inferiorizada, diferente, esquisita e me mantinha á parte de tudo e de todos, hoje em dia faço questão de me sentir como parte de algo, e se os outros não se sentem tão á vontade com as minhas limitações visuais isso já não me afecta. Penso sinceramente que me aceitei como sou e isso me está finalmente a fazer sentir feliz.
Por vezes é necessário que algo de muito drástico nos aconteça para nos darmos o devido valor.
Eu aprendi a valorizar-me continuamente e isso faz com que me sinta cada vez mais integrada e pronta a viver a vida.
Tenho a certeza de que as minhas capacidades ainda não foram totalmente exploradas e por isso agora faço questão de aceitar todos os desafios que me são apresentados no dia-a-dia e até enfrentar projectos que á algum tempo atrás nem me atreveria a pensar em aceitar.
Creio que vou ser capaz de partilhar todo o meu positivismo a todas as pessoas que me rodeiam.
Apesar de todas as minhas limitações, vou ser capaz de triunfar e realizar-me.

(Continua)

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