quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Segunda Parte da História da Anunciação
ENFRENTAR AS NOSSAS LIMITAÇÕES… É ACEITAR!
As palavras que se seguem abaixo são apenas uma pequena reflexão de algumas coisas que me têm sucedido.
Espero que elas consigam incentivar alguém que esteja na mesma situação que eu estava antes de iniciar a minha recuperação.
O aceitar é indispensável
Quando nos acontece no meio da nossa vida ficarmos privados de usar os nossos olhos para conseguirmos ser autónomos, no meu entender a primeira coisa que deveremos fazer é aceitar o mais rapidamente possível o que nos está a acontecer.
Esta aceitação é indispensável para podermos partir para as próximas etapas com a plena consciência de tudo o que nos está a acontecer. Por vezes esse processo é difícil e a família não costuma ajudar muito nesse mesmo processo.
Muitas vezes uma ajuda profissional é necessária para que a aceitação decorra com normalidade. Quanto mais rapidamente esse facto for assimilado mais rapidamente a nossa vida avança.
A revolta por vezes bloqueia-nos as ideias e os sentimentos são contraditórios mas temos que reagir prontamente como faríamos se enfrentássemos outro qualquer problema.
As pessoas mais próximas normalmente são quem mais sofre também com esses sentimentos de revolta e negação.
Procurar ajuda é necessário
A ajuda das instituições competentes é absolutamente essencial para que uma recuperação seja bem sucedida em todas as áreas da nossa vida. Nem sempre temos conhecimento dos sítios a que devemos recorrer e por esse mesmo facto por vezes passa muito tempo antes que a recuperação seja iniciada.
Para a minha pessoa a instituição a que recorri foi a ACAPO, e foi por conhecimento pessoal e não por indicação de qualquer médico ou pessoal qualificado que penso que deveria ter a obrigação de o encaminhamento dos utentes para os locais que eles conhecem e sabem poder ser de grande utilidade para as pessoas cegas ou com baixa visão.
No meu entender era uma obrigação de qualquer oftalmologista que identificasse qualquer pessoa que tivesse essas características encaminhá-las para as ditas instituições para serem acompanhadas com toda a atenção e profissionalismo que elas merecem.
A reabilitação é fundamental!
Como iniciação da nossa recuperação completa, é necessário recorrermos aos serviços especializados para o processo. No meu caso foi a ACAPO e considero que todos os ângulos da questão foram trabalhados.
Na associação tive acesso a uma psicóloga que me ajudou a enfrentar e a aceitar a constatação do meu problema. Apesar de eu já estar a meio do meu processo de aceitação e ter uma ideia do que me esperava, lá deram-me uma perspectiva mais positiva e também realista do meu futuro do que aquela que eu pensava que ia ter. O apoio da psicóloga foi fundamental.
Tive acesso às actividades da vida diária com a aprendizagem do reconhecer o dinheiro, identificar texturas e cheiros, truques para funcionar com os electrodomésticos, posicionamento do corpo ao cozinhar, métodos para reconhecer peças de roupa e todo um sem-número de pequenas dicas para serem utilizadas no dia-a-dia.
Com a técnica de mobilidade e desporto aprendi a confiar nos meus sentidos, a utilizar o meu sentido de orientação e as referências que me ia dando ou que eu já possuía mas não utilizava.
Aprendi a confiar no meu sentido da audição e a posicionar-me correctamente.
Ao ter aulas de mobilidade com o auxílio de uma bengala, a que me adaptei perfeitamente e aceitei com agrado pela perspectiva de ser independente, obtive experiências que me enriqueceram como pessoa pois os outros transeuntes normalmente estão dispostos a ajudar e sempre que necessitei de auxílio para me deslocar nunca me faltou quem me ajudasse.
Na vertente do desporto e como tinha aumentado de peso corporal e tinha dificuldade de equilíbrio tive ajuda e aulas de desporto nas instalações da associação que me ajudaram a perder algum do peso que tinha em excesso e por natureza ganhar mais equilíbrio.
O serviço de Assistência Social ajudou-me a preencher formulários, fazer pedidos de ajuda alimentar, foi-me facultada a opção de me inscrever como sócia da ACAPO, toda a ajuda me foi facultada pela por este serviço que sempre funcionou na perfeição.
Com a técnica de TIC e Braille foram-me proporcionados ensinamentos básicos dos mesmos mas apenas porque frequentei por pouco tempo esses serviços. Mesmo assim acreditem que essa aprendizagem foi um passo importante para o percurso que eu quero prosseguir.
Neste momento já estou em formação no departamento da ACAPO no Porto e essa aprendizagem deu-me uma vantagem preciosa.
É muito mais fácil conseguirmos fazer as coisas bem feitas se as bases são boas.
Quem aceda a esses mesmos serviços e invista na sua aprendizagem tem lá tudo o que necessita para aprender e desenvolver essas competências.
Na oficina do Trapilho, uma das vertentes do Grupo das Manualidades, aprendi a partilhar conhecimentos e truques para os trabalhos manuais. Algumas das práticas que lá utilizávamos eram básicos mas aprendi a fazer coisas que pensava que nunca seria capaz de fazer por causa da minha baixa visão. O enfiar uma agulha, fazer malha ou outras actividades do género são incentivadas neste espaço e a aprendizagem é não só através das técnicas mas também da partilha entre colegas que é incentivada pelas técnicas que lá laboram.
Claro que tudo tem o seu propósito, e não é só o de fazermos os trabalhos de que temos tanto orgulho. A finalidade é a de obtermos mobilidade e desenvolver a sensibilidade dos nossos dedos, coisa que vai ser indispensável para a leitura do Braille e a escrita do mesmo.
E acreditem que isso é extremamente importante!
O Braille é das ferramentas que podemos desenvolver que nos dá mais vantagens na nossa integração.
Vencer a insegurança é preciso
Depois da maior parte do trabalho estar efectuado é necessário vencer a insegurança que nos toma sem nos apercebermos disso. Normalmente a nossa família é óptima a fazer-nos sentir incapazes e inseguros, não por maldade mas por nos quererem proteger de todos os acidentes que possam ocorrer com a nossa pessoa.
Não podemos permitir que isso aconteça!
Temos que nos tornar cada vez mais independente e autónomas que nos for possível.
Se permitirmos que nos façam as coisas, quer queiramos ou não estamos a permitir que nos tirem as armas para conseguirmos esse propósito.
Esta é uma luta de todos os dias mas conseguimos vencê-la.
A requalificação profissional / formação profissional
Depois de termos passado por todas as outras etapas, mas não forçosamente termos terminado todas elas, devemos dirigir todas as nossas atenções para a requalificação profissional e consequentemente para a formação profissional em local apropriado a esse fim.
Ao termos uma avaliação nas instalações do centro de formação e com os técnicos e formadores, somos avaliados e dirigidos para a formação que eles entenderem serem o mais indicado para cada um de nós.
A formação em si é exigente mas muito estimulante e com propósitos bem definidos. Na sequência da formação temos acesso a um estágio e consequentemente a possibilidade de poder provar que somos profissionais naquilo que fazemos e mesmo que no fim esse estágio não se transforme em posto de trabalho, a possibilidade de estar inserida no mundo laboral por um período de tempo, mesmo que curto, já é incentivo suficiente para nos esmerarmos em todas as tarefas que nos são exigidas.
Conclusão:
Se no princípio nos custa muito aceitar que já não podemos fazer certas coisas pela falta de visão, também é certo que amadurecemos com as nossas provações e adquirimos forças que jamais pensávamos ter. com a ajuda competente de todas as técnicas e formadores da ACAPO, tenho a certeza de que vou conseguir aproveitar todas as potencialidades que possuo. Sou uma pessoa mais feliz agora que tenho mais limitações visuais do que quando via melhor e não me sentia realizada nem me sentia parte de nada neste mundo.
Agrada-me particularmente saber que posso contar com a minha instituição para me apoiar. A ACAPO é das melhores coisas que me apareceram na vida.
Foi através dela que me consegui erguer de novo depois de um tão grande percalço.
Hoje faço parte de algo, sinto-me quase completamente integrada, sei que já possuo as ferramentas que me vão permitir alcançar os meus objectivos.
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