quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A BAIXA VISÃO E O CAMINHO PARA A CEGUEIRA (a minha experiência)

Olá a todos!
Para além da contribuição semanal da equipa já anunciada, este espaço foi e será sempre aberto a quem queira participar. E hoje quem nos dá esse privilégio é a Susana, uma amiga de coração. Muito obrigada por ti!
     

A minha experiência e o meu sentimento deviam ser iguais ao de milhões de pessoas que passam por situações semelhantes. Depois do primeiro diagnóstico (tensão ocular alta – Glaucoma bilateral congénito-2002) pensei, comigo vai SER DIFERENTE. Eu não faço mal a ninguém, faço a minha vida e não prejudico os outros, não há motivos para que o pior me aconteça (a cegueira). Mas não foi assim! A partir de 2009 tudo se começou a desenrolar e as dificuldades causadas pela baixa visão começaram a bater à porta…

Depois de muitas cirurgias e de muitas medicações, depois de muitas opiniões, umas mais esclarecedoras do que outras. Depois de muita angustia, depois da rejeição, depois do sentimento de in  capacidade e inutilidade, depois do porque a mim, depois de não ter força/coragem para abrir os olhos de manhã e encarar mais um dia, de toda a gente ter uma “vida normal”, ter um trabalho, ser autónomo e independente e eu não. Depois da discriminação/rejeição do estorvo, da preguiça e do encosta para o lado no trabalho, sim porque apesar de tanto se falar em integração, em igualdade eu senti a discriminação e senti-me um problema que tinha que ser resolvido a todo o custo. Depois de vermos toda a nossa vida e tudo aquilo que tínhamos conquistado a fugir-nos por entre os dedos por CULPA de uma doença que não tem cura e que é difícil de controlar. Depois de muito choro, depois de muita revolta, depois da incompreensão de alguns familiares e conhecidos, (que preferem meter a cabeça na areia e fazer de conta que o problema não existe para não serem ou não se sentirem incomodados, sim porque é sempre mais agradável desfrutar de coisas boas do que partilhar momentos maus). Depois da pena por nós próprios e da pena dos outros. Depois de me sentir incompreendida, de bater no fundo do poço e não saber qual o rumo a seguir, depois de anos de sofrimento, dias e dias á espera de um “milagre” e á procura de respostas e soluções que não chegam… Depois de tantos depois… aprendi (com ajuda psicológica) a aceitar aquilo que a vida nos dá e aquilo que a vida nos tira. Seja bom, seja mau. Todas as experiências são válidas e importantes, só temos que aprender a tirar o melhor partido delas. Mas não foi sozinha que o consegui. Nesta luta tive e tenho a melhor pessoa do mundo a meu lado. O meu MARIDO. Sempre me apoiou, sempre me acolheu, sempre me abraçou quando eu chorei, quando eu me revoltei, quando eu o questionei porque estava comigo. Sempre tive a mesma resposta; “amo-te e ouças o que ouvires gosto de ti como tu és”. Só encontro uma explicação: uma infinita capacidade de amar e de aceitar a vida como ela é.

Também contei com o apoio dos AMIGOS, poucos mas bons. E de amigos dos meus amigos. Pessoas que me levaram pela mão e que me deram a conhecer a possibilidade e as potencialidades da reabilitação, que me apresentaram a ACAPO e o trabalho fantástico e integrador que é desenvolvido por todas as pessoas que fazem parte desta Associação.

Embora precisa-se desta ajuda á já algum tempo, só á relativamente pouco tempo fui capaz de dar o passo e entrar neste mundo. Tão desconhecido, tão assustador e ao mesmo tempo tão revelador das capacidades e da verdadeira essência do ser humano. Embora seja dos órgãos dos sentidos o mais importante, pois é aquele que nos dá mais informação do mundo que nos rodeia, temos que aceitar e aprender a prescindir dele. Esta nova fase da minha vida leva-me á conclusão que o ser humano não é só olhos. Funciona como um todo, e quando alguma parte falha as outras reestruturam-se, adaptam-se e compensam a "peça" que falhou.

A 19 de Março de 2013 (um dia importante para mim, não só por ser o Dia do Pai, mas também por ser o dia de anos do meu Pai já falecido) deu-se o primeiro contato, senti que estava a dar o primeiro passo para a mudança, que começava a ter força para lutar e trilhar um caminho na minha vida.

Neste primeiro encontro, senti logo que falava-mos a mesma língua, senti-me compreendida, finalmente fui capaz de sentir que fazia parte daquele mundo. Senti-me integrada e senti vontade de começar a reabilitação. Mas esta vontade veio de dentro para fora, depois da fase da revolta e da rejeição. Não vale a pena os outros dizerem que temos de ir se nós não o sentimos e não o queremos sentir.

Estou a reaprender a viver, a redescobrir o mundo que me rodeia, a conhecer-me e a conhecer as minhas capacidades. Estou a aprender a aceitar e a lidar com a minha limitação. Não é fácil, é um caminho difícil, mas todos os dias quero acreditar que vou ser capaz de enfrentar os meus medos e as minhas angústias. Cada dia é mais um dia de luta, mais um dia que fui capaz de enfrentar e de ultrapassar as contrariedades que a vida me põe. Quero ser feliz e vou conquistar a minha felicidade, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia. Hoje em dia o meu lema é viver um dia de cada vez, sem pressas, sem planos a longo prazo. Tento desfrutar das coisas boas da vida e remover as pedras, os penedos que a vida põe no meu caminho. Estou a lutar o melhor que sei e que sou capaz…

Susana Monteiro

8 comentários:

Andante disse...

Olá Susana.
Permite que te trate por tu. Se és amiga da Mila és também minha amiga.
Sabes, a Mila é muito especial para mim. Chega sereninha e, quando se sente acolhida, transforma-se numa grande MULHER.
Gosto muito dela!
Para ti, quero dizer que me deixaste calada e sem palavras perante o teu testemunho na primeira pessoa.
Tal como a Mila, estás a reaprender a viver e a viver a vida com mais força, esforço e coragem.
Obrigada e... escreve mais.
beijos peregrinos
Céu

Bé disse...

Bom dia com Alegria

Linda Susana, só quem VÊ muito bem é que consegue escrever/falar assim!

Pelo teu testemunho, por outras histórias que já ouvi,…pela minha própria história, percebo que DEUS é mesmo BOM, está sempre de mão dada a nós, principalmente nos momentos mais difíceis. Nas tuas palavras percebe-se o quanto ELE gosta de ti. O quanto LUTOU e LUTA por ti usando as “armas” mais bonitas que podemos imaginar: o teu MARIDO, alguns AMIGOS, o Pai, o dia 19,…é bonito não é?

Obrigada pelo teu testemunho linda Susana.

Sabes o que me apetece garantir-te? De dia para dia vais ser mais feliz porque deixaste de ver algumas coisas mas começaste a VER o que é simples…começaste a ver o AMOR…e para quem me conhece sabe que eu não posso deixar de dizer-te isto! – ENCONTRASTE o Espírito Santo! És uma privilegiada! Muito obrigada pelo teu testemunho!

Um beijinho carregadinho de SHALOM

Unknown disse...

Viva Susana!
Com uma história bem-parecida com a tua, revejo-me totalmente nestas tuas palavras, pois também comigo aconteceu o mesmo.
Com algumas diferenças como é óbvio, com ações e reações também um pouquinho diferentes, trilhei exatamente esse caminho que hoje fazes, e só te tenho a dizer que valeu a pena!
O número de pessoas que nos acompanham na caminhada não é importante, importante é a sua qualidade.
Perdi amigos que sempre julguei serem, mas ganhei outros que já mais perdi...
Não sendo fácil, é um caminho possível de se fazer, com uma meta que vale a pena alcançar.
Hoje, 18 anos depois de me terem desligado totalmente a luz, sinto que valeu a pena, tanta luta, tantos avanços e recuos, tantas dúvidas que tive e atitudes que tomei, porque alcancei a minha verdadeira liberdade!
As pedras que nos colocam no caminho são muitas e muito difíceis de se contornar, mas acredito que também nos fazem crescer.
Força para a luta, e pensa que se os outros conseguiram tu também consegues, sem dúvida!


Bé disse...

Olá Sérgio, ao ler o teu comentário surgiu-me uma dúvida: tu consegues ler do ecran do computador ou tens alguém para te ajudar?
É incrível o que o ser humano com ajuda de Deus consegue...
obrigada aos dois pelas vossas vidas!
SHALOM

Unknown disse...

Olá Bé,
Não tive ninguém a ler o que está aqui escrito no blog, felizmente os cegos hoje tem autonomia para se poderem movimentar razoavelmente bem no mundo da informática, graças às novas ferramentas desenvolvidas para nós.
Existem alguns programas específicos para que os invisuais possam ter acesso a este maravilhoso mundo de informação e diversão.
Uns são em forma de áudio digamos, dando-nos toda a informação de texto que aparece no ecrã, funcionando como se fosse alguém a ler-nos…, sendo estes os mais usados devido a serem mais baratos e porque nem todos os deficientes visuais sabem ler braille.
Falo em ler braille, porque também existe um outro que em vez de áudio, a informação é transmitida nesta forma de escrita específica de quem não vê, proporcionando às pessoas lerem através do tato, num dispositivo instalado no computador.
Somos assim quase autónomos neste mundo, embora ainda muitas barreiras se nos deparem devido ao facto de vários sites e programas não serem ainda muito acessíveis, sobretudo por terem muitas imagens, por exemplo.
Espero ter dado uma pequena ideia de como conseguimos estar neste mundo, nestas poucas palavras, e estou disponível para algo mais que queiras saber, bem como todos os outros leitores!
Saudações,
Sérgio

Bé disse...

Bom dia com alegria! Muito obrigada Sérgio pela tua resposta. Fico muito feliz por saber que o Homem está atento e preocupa-se com os seus irmãos encontrando ferramentas que permitam que todos caminhemos juntos na VIDA. Temos então que derrotar algumas montanhas/barreiras. Acredito que a informação ajude. Provavelmente muitos desses lugares não acessíveis (sites) existem porque o outro lado não sabe das limitações que pode causar a um cego (por exemplo muitas imagens)...muito interessante. Muito obrigada.
SHALOM











Unknown disse...

Realmente a imagem não é nada amiga dos cegos, mas pode ser que entretanto algo mais atualizado apareça e remova essas montanhas que ainda persistem no caminho dos invisuais!
Acredito que muitas sejam necessárias para tornar os sites, blogs e outros mais bonitos a quem vê, mais atrativos, mas acabamos por ser nós a pagar essa factura, ficando neste caso dependentes de alguém que nos possa descrever as mesmas, ou quem não tem essa possibilidade ficar impedido de as visualizar, pura e simplesmente.
Muitas vezes, em muitos casos é apenas uma questão de boa vontade por parte de quem é responsável por esses espaços virtuais, pois com uma pequena descrição a acompanhar os bonequinhos resolveria tudo!
Obrigado pelas perguntas, estas e outras ajudam a que o nosso mundo seja menos desconhecido e assustador para muita gente.
Sempre às ordens no que puder e souber,


Abel disse...

Sá agora (...), mas acabo de "mastigar gostosamente" a partilha da Susana e cada um dos comentários aqui aparecidos. Um Obrigado especial à Susana. E outro também à Bé que arrancou ao Sérgio uma informação tão preciosa de que eu não dispunha.
Há dias, desafiado pela Mila, passei por aqui, e, anonimanente fiz ECO da partilha do Sérgio com quem estive, depois, na passada 4ª feira, na Comunidade do CER, sem saber que o tal "Sérgio Andrade" era "aquele"... A Milá é que me fez as pontes.
Hoje não posso ECOAR mais e melhor. Já estou atrasado para, em Serralves, participar na luta pelo reconhecimento de um "Património Natural Intangível - como uma condição estrutural para uma linguagem comum e uma ação coletiva global". Afinal, a falta de uma "linguagem comum" não faz falta só para falar da cegueira...
Prometo que volto e com achegas que, penso, trazem luz.