Olá a todos!
Para além da contribuição semanal da equipa já anunciada, este espaço foi e será sempre aberto a quem queira participar. E hoje quem nos dá esse privilégio é a Susana, uma amiga de coração. Muito obrigada por ti!
Para além da contribuição semanal da equipa já anunciada, este espaço foi e será sempre aberto a quem queira participar. E hoje quem nos dá esse privilégio é a Susana, uma amiga de coração. Muito obrigada por ti!
A minha experiência e o meu sentimento deviam ser iguais ao de milhões de pessoas que passam por situações semelhantes. Depois do primeiro diagnóstico (tensão ocular alta – Glaucoma bilateral congénito-2002) pensei, comigo vai SER DIFERENTE. Eu não faço mal a ninguém, faço a minha vida e não prejudico os outros, não há motivos para que o pior me aconteça (a cegueira). Mas não foi assim! A partir de 2009 tudo se começou a desenrolar e as dificuldades causadas pela baixa visão começaram a bater à porta…
Depois
de muitas cirurgias e de muitas medicações, depois de muitas opiniões, umas
mais esclarecedoras do que outras. Depois de muita angustia, depois da
rejeição, depois do sentimento de in capacidade e inutilidade, depois do porque
a mim, depois de não ter força/coragem para abrir os olhos de manhã e encarar
mais um dia, de toda a gente ter uma “vida normal”, ter um trabalho, ser
autónomo e independente e eu não. Depois da discriminação/rejeição do estorvo,
da preguiça e do encosta para o lado no trabalho, sim porque apesar de tanto se
falar em integração, em igualdade eu senti a discriminação e senti-me um
problema que tinha que ser resolvido a todo o custo. Depois de vermos toda a
nossa vida e tudo aquilo que tínhamos conquistado a fugir-nos por entre os
dedos por CULPA de uma doença que não tem cura e que é difícil de controlar. Depois
de muito choro, depois de muita revolta, depois da incompreensão de alguns
familiares e conhecidos, (que preferem meter a cabeça na areia e fazer de conta
que o problema não existe para não serem ou não se sentirem incomodados, sim
porque é sempre mais agradável desfrutar de coisas boas do que partilhar
momentos maus). Depois da pena por nós próprios e da pena dos outros. Depois de
me sentir incompreendida, de bater no fundo do poço e não saber qual o rumo a
seguir, depois de anos de sofrimento, dias e dias á espera de um “milagre” e á
procura de respostas e soluções que não chegam… Depois de tantos depois…
aprendi (com ajuda psicológica) a aceitar aquilo que a vida nos dá e aquilo que
a vida nos tira. Seja bom, seja mau. Todas as experiências são válidas e
importantes, só temos que aprender a tirar o melhor partido delas. Mas não foi
sozinha que o consegui. Nesta luta tive e tenho a melhor pessoa do mundo a meu
lado. O meu MARIDO. Sempre me apoiou, sempre me acolheu, sempre me abraçou
quando eu chorei, quando eu me revoltei, quando eu o questionei porque estava
comigo. Sempre tive a mesma resposta; “amo-te e ouças o que ouvires gosto de ti
como tu és”. Só encontro uma explicação: uma infinita capacidade de amar e de
aceitar a vida como ela é.
Também
contei com o apoio dos AMIGOS, poucos mas bons. E de amigos dos meus amigos.
Pessoas que me levaram pela mão e que me deram a conhecer a possibilidade e as
potencialidades da reabilitação, que me apresentaram a ACAPO e o trabalho
fantástico e integrador que é desenvolvido por todas as pessoas que fazem parte
desta Associação.
Embora
precisa-se desta ajuda á já algum tempo, só á relativamente pouco tempo fui
capaz de dar o passo e entrar neste mundo. Tão desconhecido, tão assustador e
ao mesmo tempo tão revelador das capacidades e da verdadeira essência do ser
humano. Embora seja dos órgãos dos sentidos o mais importante, pois é aquele
que nos dá mais informação do mundo que nos rodeia, temos que aceitar e
aprender a prescindir dele. Esta nova fase da minha vida leva-me á conclusão
que o ser humano não é só olhos. Funciona como um todo, e quando alguma parte
falha as outras reestruturam-se, adaptam-se e compensam a "peça" que
falhou.
A 19
de Março de 2013 (um dia importante para mim, não só por ser o Dia do Pai, mas
também por ser o dia de anos do meu Pai já falecido) deu-se o primeiro contato,
senti que estava a dar o primeiro passo para a mudança, que começava a ter
força para lutar e trilhar um caminho na minha vida.
Neste
primeiro encontro, senti logo que falava-mos a mesma língua, senti-me
compreendida, finalmente fui capaz de sentir que fazia parte daquele mundo.
Senti-me integrada e senti vontade de começar a reabilitação. Mas esta vontade
veio de dentro para fora, depois da fase da revolta e da rejeição. Não vale a
pena os outros dizerem que temos de ir se nós não o sentimos e não o queremos
sentir.
Estou
a reaprender a viver, a redescobrir o mundo que me rodeia, a conhecer-me e a
conhecer as minhas capacidades. Estou a aprender a aceitar e a lidar com a
minha limitação. Não é fácil, é um caminho difícil, mas todos os dias quero
acreditar que vou ser capaz de enfrentar os meus medos e as minhas angústias.
Cada dia é mais um dia de luta, mais um dia que fui capaz de enfrentar e de
ultrapassar as contrariedades que a vida me põe. Quero ser feliz e vou
conquistar a minha felicidade, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia. Hoje em
dia o meu lema é viver um dia de cada vez, sem pressas, sem planos a longo
prazo. Tento desfrutar das coisas boas da vida e remover as pedras, os penedos
que a vida põe no meu caminho. Estou a lutar o melhor que sei e que sou capaz…
Susana
Monteiro
8 comentários:
Olá Susana.
Permite que te trate por tu. Se és amiga da Mila és também minha amiga.
Sabes, a Mila é muito especial para mim. Chega sereninha e, quando se sente acolhida, transforma-se numa grande MULHER.
Gosto muito dela!
Para ti, quero dizer que me deixaste calada e sem palavras perante o teu testemunho na primeira pessoa.
Tal como a Mila, estás a reaprender a viver e a viver a vida com mais força, esforço e coragem.
Obrigada e... escreve mais.
beijos peregrinos
Céu
Bom dia com Alegria
Linda Susana, só quem VÊ muito bem é que consegue escrever/falar assim!
Pelo teu testemunho, por outras histórias que já ouvi,…pela minha própria história, percebo que DEUS é mesmo BOM, está sempre de mão dada a nós, principalmente nos momentos mais difíceis. Nas tuas palavras percebe-se o quanto ELE gosta de ti. O quanto LUTOU e LUTA por ti usando as “armas” mais bonitas que podemos imaginar: o teu MARIDO, alguns AMIGOS, o Pai, o dia 19,…é bonito não é?
Obrigada pelo teu testemunho linda Susana.
Sabes o que me apetece garantir-te? De dia para dia vais ser mais feliz porque deixaste de ver algumas coisas mas começaste a VER o que é simples…começaste a ver o AMOR…e para quem me conhece sabe que eu não posso deixar de dizer-te isto! – ENCONTRASTE o Espírito Santo! És uma privilegiada! Muito obrigada pelo teu testemunho!
Um beijinho carregadinho de SHALOM
Viva Susana!
Com uma história bem-parecida com a tua, revejo-me totalmente nestas tuas palavras, pois também comigo aconteceu o mesmo.
Com algumas diferenças como é óbvio, com ações e reações também um pouquinho diferentes, trilhei exatamente esse caminho que hoje fazes, e só te tenho a dizer que valeu a pena!
O número de pessoas que nos acompanham na caminhada não é importante, importante é a sua qualidade.
Perdi amigos que sempre julguei serem, mas ganhei outros que já mais perdi...
Não sendo fácil, é um caminho possível de se fazer, com uma meta que vale a pena alcançar.
Hoje, 18 anos depois de me terem desligado totalmente a luz, sinto que valeu a pena, tanta luta, tantos avanços e recuos, tantas dúvidas que tive e atitudes que tomei, porque alcancei a minha verdadeira liberdade!
As pedras que nos colocam no caminho são muitas e muito difíceis de se contornar, mas acredito que também nos fazem crescer.
Força para a luta, e pensa que se os outros conseguiram tu também consegues, sem dúvida!
Olá Sérgio, ao ler o teu comentário surgiu-me uma dúvida: tu consegues ler do ecran do computador ou tens alguém para te ajudar?
É incrível o que o ser humano com ajuda de Deus consegue...
obrigada aos dois pelas vossas vidas!
SHALOM
Olá Bé,
Não tive ninguém a ler o que está aqui escrito no blog, felizmente os cegos hoje tem autonomia para se poderem movimentar razoavelmente bem no mundo da informática, graças às novas ferramentas desenvolvidas para nós.
Existem alguns programas específicos para que os invisuais possam ter acesso a este maravilhoso mundo de informação e diversão.
Uns são em forma de áudio digamos, dando-nos toda a informação de texto que aparece no ecrã, funcionando como se fosse alguém a ler-nos…, sendo estes os mais usados devido a serem mais baratos e porque nem todos os deficientes visuais sabem ler braille.
Falo em ler braille, porque também existe um outro que em vez de áudio, a informação é transmitida nesta forma de escrita específica de quem não vê, proporcionando às pessoas lerem através do tato, num dispositivo instalado no computador.
Somos assim quase autónomos neste mundo, embora ainda muitas barreiras se nos deparem devido ao facto de vários sites e programas não serem ainda muito acessíveis, sobretudo por terem muitas imagens, por exemplo.
Espero ter dado uma pequena ideia de como conseguimos estar neste mundo, nestas poucas palavras, e estou disponível para algo mais que queiras saber, bem como todos os outros leitores!
Saudações,
Sérgio
Bom dia com alegria! Muito obrigada Sérgio pela tua resposta. Fico muito feliz por saber que o Homem está atento e preocupa-se com os seus irmãos encontrando ferramentas que permitam que todos caminhemos juntos na VIDA. Temos então que derrotar algumas montanhas/barreiras. Acredito que a informação ajude. Provavelmente muitos desses lugares não acessíveis (sites) existem porque o outro lado não sabe das limitações que pode causar a um cego (por exemplo muitas imagens)...muito interessante. Muito obrigada.
SHALOM
Realmente a imagem não é nada amiga dos cegos, mas pode ser que entretanto algo mais atualizado apareça e remova essas montanhas que ainda persistem no caminho dos invisuais!
Acredito que muitas sejam necessárias para tornar os sites, blogs e outros mais bonitos a quem vê, mais atrativos, mas acabamos por ser nós a pagar essa factura, ficando neste caso dependentes de alguém que nos possa descrever as mesmas, ou quem não tem essa possibilidade ficar impedido de as visualizar, pura e simplesmente.
Muitas vezes, em muitos casos é apenas uma questão de boa vontade por parte de quem é responsável por esses espaços virtuais, pois com uma pequena descrição a acompanhar os bonequinhos resolveria tudo!
Obrigado pelas perguntas, estas e outras ajudam a que o nosso mundo seja menos desconhecido e assustador para muita gente.
Sempre às ordens no que puder e souber,
Sá agora (...), mas acabo de "mastigar gostosamente" a partilha da Susana e cada um dos comentários aqui aparecidos. Um Obrigado especial à Susana. E outro também à Bé que arrancou ao Sérgio uma informação tão preciosa de que eu não dispunha.
Há dias, desafiado pela Mila, passei por aqui, e, anonimanente fiz ECO da partilha do Sérgio com quem estive, depois, na passada 4ª feira, na Comunidade do CER, sem saber que o tal "Sérgio Andrade" era "aquele"... A Milá é que me fez as pontes.
Hoje não posso ECOAR mais e melhor. Já estou atrasado para, em Serralves, participar na luta pelo reconhecimento de um "Património Natural Intangível - como uma condição estrutural para uma linguagem comum e uma ação coletiva global". Afinal, a falta de uma "linguagem comum" não faz falta só para falar da cegueira...
Prometo que volto e com achegas que, penso, trazem luz.
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