segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma amiga que se chama bengala



 Olá amigos!

Quero partilhar um pouco da minha alegria convosco, por isso, decidi partilhar um evento da minha vida.

Celebrámos no passado dia 15 de Outubro, um dia de uma importância enorme: o dia da Bengala Branca! Para mim, que sou amblíope e para os meus amigos que são cegos, esta é uma amiga com quem podemos contar. Esperem, se calhar nunca ouviram este termo “amblíope”, quer dizer que tenho muito baixa visão, aquilo que para os normovisuais é um dado adquirido, para mim, é uma dificuldade apenas ultrapassada com equipamentos como a lupa eletrónica, o ampliador ou a bengala.

Estive num convívio, cerca de 30 pessoas, (onde mais de 1 dezena são normovisuais) num dia de passeio. Música e alegria, visita guiada a museu e almoço que a todos agradou. Não me canso de elogiar quem sempre nos acompanha e partilha algum do seu tempo neste grupo de amigos que se vai formando sem olhar a diferenças.… Já quase no final da viagem, perto da estação de comboio, fomos abordados por um grupo de 3 jovens, alunos da Faculdade que nos tinham capturado em vídeo e necessitavam da nossa autorização para o colocarem no YouTube. Todos acedemos, mas no final, espantam-se! Não tinham dado conta que éramos pessoas com deficiência visual! Para eles, as nossas amigas bengalas eram apenas adereços de moda! Nada mais! Depois de um pequeno esclarecimento, onde explicamos que nesse dia celebrava-mos o dia da Bengala Branca, que nasceu em 1964, ainda de madeira e pintada de vermelho e branco,consideraram-se elucidados. Neste feliz contato com jovens existe no entanto um facto que me entristeceu.Apesar de nos apresentarmos como pessoas cegas, somos tratados com a denominação de Invisuais! A palavra “cego” é demasiado forte para os ouvidos de muitas pessoas, portanto foi adotada a palavra “invisual” para se suavizar um facto que não deixa de ser uma realidade. Somos Cegos! Quando noutros tempos se tratavam os cegos por “ceguinhos” era ainda pior, mas, para a minha pessoa seja ceguinho ou invisual, para mim estão a maltratar-me. Não deixo de ser quem sou por ser cega, porque se diz: Deixa passar a ceguinha, eu por acaso deixei de ser mulher? Então porque não dizer: deixa passar a senhora,. Infelizmente quando somos cegos perdemos a nossa identidade.

Mas voltando ás nossas bengalas, são amigas que nos indicam obstáculos e barreiras para que os nossos percursos sejam mais fáceis, dando-nos assim uma autonomia e segurança preciosas. Não sou de tristezas, por isso aquilo que ficou de mais positivo nesse dia, foi isso mesmo, uma lição dada da melhor maneira possível em contacto direto de todos os intervenientes em questão.

Não hesitem em perguntar sempre que tenham dúvidas, só assim se aprende!

Desta sorridente amiga que vos saúda,
Muita felicidade,

Anunciação Velho

6 comentários:

Paula Santos disse...

Parabéns escreves com sentimento e de coração aberto!
A minha melhor amiga também é a bengala!!
Foi um dia radiante para nós todos...beijinhos minhas lindas!

mila disse...

Já agora também digo que tenho uma amiga assim! Ainda não preciso dela sempre, só de noite ou em terrenos desconhecidos...
Também celebrei convosco o dia da bengala branca e foi muito bom!

Beijinhos

Mila

Unknown disse...

Olá.
Sou invisual, e não consigo entender porque se entristeceu pelo facto de ter sido tratada com este termo.
Não vejo mal algum, é uma forma de trato perfeitamente normal, como é cego, deficiente visual, portador de deficiência visual....
Para mim o problema não está no adjectivo empregue, mas sim na forma!
Pode-se usar palavras muito bonitas com mau sentido, assim como palavras menos suaves como diz com tremendo sentido de pena.
Quanto ao dia da bengala branca, acho que hoje já não faz muito sentido essa denominação, já que temos cada vez mais utilizadores dos cães guia, daí que um dia destes se tenha de arranjar também uma data dedicada a estes guias e guiados....

Saudações.

Sérgio

Maria Paula Constantino disse...

Como diz uma amiga minha: "se os cegos são invisuais, então os surdos são insonoros", isto é, já que não falam, poucos sons emitem, deviam ser tratados assim, mas felizmente que não são. Acho que se deve apresentar a realidade tal como ela é, e não andar com rodeios. Eu não sou cega, mas não gosto de ouvir tratar os cegos por invisuais, porque eles vêem-se, não são invisíveis, embora muitas vezes não sejam vistos nem respeitados por aqueles que vêem.

Victor disse...

Olá a todos!
Eu estou de acordo com o meu Amigo Sérgio, pois é tudo uma questão da forma como empregamos os adjectivos, senão vejamos, a mim que me apelidam de normal, acham que levo a mal sabendo eu das anormalidades que fazem parte da minha pessoa? ;)...rsrsrs(risos)
Na verdade para mim vocês são pessoas das quais eu gosto Muito.

Um Abraço muito Grande deste (a)normal vosso Amigo.
Victor

Anónimo disse...

Realmente o Nietzsche tinha razão: "Não há facto, há somente interpretações". E o nosso Saramago, de uma forma talvez mais clara: "Tudo pode ser contado de outra maneira". Porque os nomes, as palavras nasceram e sempre nascem como "sinais convencionais" para as pessoas se entenderem... Instalaram-se e, com o tempo, viraram "fonte de mal entendidos" - no sábio dizer da "raposa" ao "principezinho" de Saint Exupery. Gosto de olhar de frente / descobrir a REALIDADE - essa que sempre esconde muitos "mistérios" que preciso a+profundar... E vou com Hugh Phrater: "Só as pessoas desonestas acreditam mais nas palavras do que na realidade"... Parabéns, Sérgio Gonçalves. "Invisual", "cego" ou "o-raio-que-o-parta", ..., é assim que EU GOSTO DE SI. Uma pessoa capaz de "remar contra a corrente" - se ela não corre no sentido do real, único guia e mestre do nosso pensamento.