Há um relato do Evangelho que me faz sempre pensar. Uma vez, Jesus ia a passar e um cego chamou-O. Jesus, em vez de voltar para trás, disse que o cego fosse ter com Ele.
Sempre que me recordo desta passagem, dou por mim a pensar que nós, que tantas vezes somos bonzinhos em vez de sermos bons, só vemos as limitações e, muitas vezes, até lhes acrescentamos mais umas fruto da nossa cabeça. Por isso, nós, que somos bonzinhos em vez de sermos bons, iríamos lá ter com o “coitadinho” do cego, em vez de lhe darmos uma oportunidade de se erguer. Temos a tendência de fazer dos cegos paralíticos.
Sobre a forma como muitas vezes os cegos são tratados, já temos tido aqui testemunhos em carne viva.
No entanto, esta experiência de ver para além das aparências e de não criar novas barreiras pode ser vista de tantas formas!
Imaginemos que temos um familiar que já tem alguma idade. Por causa dela, a audição já não é o que era e, por isso, às vezes, entra trocado nas conversas, responde coisas sem nexo. Será que, por causa disso, não o vemos como um demente, em vez de percebermos que está surdo?
Imaginemos que temos um familiar que pode andar pouco, mas que consegue fazer as suas voltinhas, com tempo, sem pressas. Se, para andarmos mais depressa, o deixamos em casa e vamos nós buscar o que precisa, não estaremos a fazer do manco paralítico?
Imaginemos que conhecemos uma criança que tem problemas de fala, que tornam a percepção do que diz muito difícil, e que, por causa disso, evitamos falar com essa criança, que é intelectualmente perfeitamente normal, não estaremos a bloquear-lhe ainda mais o desenvolvimento da linguagem?
Pois é, os nossos preconceitos, as nossas pressas e muitas vezes as nossas bondadezinhas de trazer por cada impedem-nos de ver bem, de ver o outro para lá das suas limitações, de ver o outro como uma fonte inesgotável de possibilidades.
Hoje, a pergunta é: que preconceitos tens que te impedem de VER bem os outros? E de te veres bem a ti mesmo?
Micaela Lemos Madureira
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