sábado, 2 de novembro de 2013

PRESENTES


Considero que um dos maiores presentes que nos podemos oferecer é tempo de qualidade passado com aqueles pequenos e mágicos seres a quem chamamos “crianças”. Não falo de os entreter, mas antes de nos entregarmos integralmente a essa interação, com a mesma presença, consciência e entusiasmo que elas imprimem a cada momento da sua existência.
Quando isso acontece, a nossa própria criança interior [que manifesta a nossa essência mais profunda, tantas vezes reprimida por um conjunto de pesos e pressões que fomos acumulando ao longo da nossa vida] recebe um convite para se exprimir e respirar.
Sinto-me grata por todas as crianças que partilham a minha existência. Elas ensinam-me a ser feliz na simplicidade, maravilhada perante os pequenos grandes milagres da vida, e autêntica perante os desafios que me são colocados. Acima de tudo, ajudam-me a perceber – ou relembrar - o que é verdadeiramente importante.
Neste preciso momento, sinto os movimentos da minha filha dentro do meu ventre. Sinto a sua força e energia, e sei que dentro de algumas horas ou talvez um ou dois dias, poderei ver o seu rosto e dar-lhe a mão pela primeira vez. Sinto-me profundamente feliz. Ainda sei muito pouco sobre ela, mas desde já escolho ser capaz de a acolher e amar sem condições e permitir que a minha criança interior esteja sempre presente na nossa relação. Quero ser merecedora deste privilégio imenso que é ser Mãe. 
Natacha Soares Ribeiro

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A BAIXA VISÃO E O CAMINHO PARA A CEGUEIRA (a minha experiência)

Olá a todos!
Para além da contribuição semanal da equipa já anunciada, este espaço foi e será sempre aberto a quem queira participar. E hoje quem nos dá esse privilégio é a Susana, uma amiga de coração. Muito obrigada por ti!
     

A minha experiência e o meu sentimento deviam ser iguais ao de milhões de pessoas que passam por situações semelhantes. Depois do primeiro diagnóstico (tensão ocular alta – Glaucoma bilateral congénito-2002) pensei, comigo vai SER DIFERENTE. Eu não faço mal a ninguém, faço a minha vida e não prejudico os outros, não há motivos para que o pior me aconteça (a cegueira). Mas não foi assim! A partir de 2009 tudo se começou a desenrolar e as dificuldades causadas pela baixa visão começaram a bater à porta…

Depois de muitas cirurgias e de muitas medicações, depois de muitas opiniões, umas mais esclarecedoras do que outras. Depois de muita angustia, depois da rejeição, depois do sentimento de in  capacidade e inutilidade, depois do porque a mim, depois de não ter força/coragem para abrir os olhos de manhã e encarar mais um dia, de toda a gente ter uma “vida normal”, ter um trabalho, ser autónomo e independente e eu não. Depois da discriminação/rejeição do estorvo, da preguiça e do encosta para o lado no trabalho, sim porque apesar de tanto se falar em integração, em igualdade eu senti a discriminação e senti-me um problema que tinha que ser resolvido a todo o custo. Depois de vermos toda a nossa vida e tudo aquilo que tínhamos conquistado a fugir-nos por entre os dedos por CULPA de uma doença que não tem cura e que é difícil de controlar. Depois de muito choro, depois de muita revolta, depois da incompreensão de alguns familiares e conhecidos, (que preferem meter a cabeça na areia e fazer de conta que o problema não existe para não serem ou não se sentirem incomodados, sim porque é sempre mais agradável desfrutar de coisas boas do que partilhar momentos maus). Depois da pena por nós próprios e da pena dos outros. Depois de me sentir incompreendida, de bater no fundo do poço e não saber qual o rumo a seguir, depois de anos de sofrimento, dias e dias á espera de um “milagre” e á procura de respostas e soluções que não chegam… Depois de tantos depois… aprendi (com ajuda psicológica) a aceitar aquilo que a vida nos dá e aquilo que a vida nos tira. Seja bom, seja mau. Todas as experiências são válidas e importantes, só temos que aprender a tirar o melhor partido delas. Mas não foi sozinha que o consegui. Nesta luta tive e tenho a melhor pessoa do mundo a meu lado. O meu MARIDO. Sempre me apoiou, sempre me acolheu, sempre me abraçou quando eu chorei, quando eu me revoltei, quando eu o questionei porque estava comigo. Sempre tive a mesma resposta; “amo-te e ouças o que ouvires gosto de ti como tu és”. Só encontro uma explicação: uma infinita capacidade de amar e de aceitar a vida como ela é.

Também contei com o apoio dos AMIGOS, poucos mas bons. E de amigos dos meus amigos. Pessoas que me levaram pela mão e que me deram a conhecer a possibilidade e as potencialidades da reabilitação, que me apresentaram a ACAPO e o trabalho fantástico e integrador que é desenvolvido por todas as pessoas que fazem parte desta Associação.

Embora precisa-se desta ajuda á já algum tempo, só á relativamente pouco tempo fui capaz de dar o passo e entrar neste mundo. Tão desconhecido, tão assustador e ao mesmo tempo tão revelador das capacidades e da verdadeira essência do ser humano. Embora seja dos órgãos dos sentidos o mais importante, pois é aquele que nos dá mais informação do mundo que nos rodeia, temos que aceitar e aprender a prescindir dele. Esta nova fase da minha vida leva-me á conclusão que o ser humano não é só olhos. Funciona como um todo, e quando alguma parte falha as outras reestruturam-se, adaptam-se e compensam a "peça" que falhou.

A 19 de Março de 2013 (um dia importante para mim, não só por ser o Dia do Pai, mas também por ser o dia de anos do meu Pai já falecido) deu-se o primeiro contato, senti que estava a dar o primeiro passo para a mudança, que começava a ter força para lutar e trilhar um caminho na minha vida.

Neste primeiro encontro, senti logo que falava-mos a mesma língua, senti-me compreendida, finalmente fui capaz de sentir que fazia parte daquele mundo. Senti-me integrada e senti vontade de começar a reabilitação. Mas esta vontade veio de dentro para fora, depois da fase da revolta e da rejeição. Não vale a pena os outros dizerem que temos de ir se nós não o sentimos e não o queremos sentir.

Estou a reaprender a viver, a redescobrir o mundo que me rodeia, a conhecer-me e a conhecer as minhas capacidades. Estou a aprender a aceitar e a lidar com a minha limitação. Não é fácil, é um caminho difícil, mas todos os dias quero acreditar que vou ser capaz de enfrentar os meus medos e as minhas angústias. Cada dia é mais um dia de luta, mais um dia que fui capaz de enfrentar e de ultrapassar as contrariedades que a vida me põe. Quero ser feliz e vou conquistar a minha felicidade, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia. Hoje em dia o meu lema é viver um dia de cada vez, sem pressas, sem planos a longo prazo. Tento desfrutar das coisas boas da vida e remover as pedras, os penedos que a vida põe no meu caminho. Estou a lutar o melhor que sei e que sou capaz…

Susana Monteiro

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma amiga que se chama bengala



 Olá amigos!

Quero partilhar um pouco da minha alegria convosco, por isso, decidi partilhar um evento da minha vida.

Celebrámos no passado dia 15 de Outubro, um dia de uma importância enorme: o dia da Bengala Branca! Para mim, que sou amblíope e para os meus amigos que são cegos, esta é uma amiga com quem podemos contar. Esperem, se calhar nunca ouviram este termo “amblíope”, quer dizer que tenho muito baixa visão, aquilo que para os normovisuais é um dado adquirido, para mim, é uma dificuldade apenas ultrapassada com equipamentos como a lupa eletrónica, o ampliador ou a bengala.

Estive num convívio, cerca de 30 pessoas, (onde mais de 1 dezena são normovisuais) num dia de passeio. Música e alegria, visita guiada a museu e almoço que a todos agradou. Não me canso de elogiar quem sempre nos acompanha e partilha algum do seu tempo neste grupo de amigos que se vai formando sem olhar a diferenças.… Já quase no final da viagem, perto da estação de comboio, fomos abordados por um grupo de 3 jovens, alunos da Faculdade que nos tinham capturado em vídeo e necessitavam da nossa autorização para o colocarem no YouTube. Todos acedemos, mas no final, espantam-se! Não tinham dado conta que éramos pessoas com deficiência visual! Para eles, as nossas amigas bengalas eram apenas adereços de moda! Nada mais! Depois de um pequeno esclarecimento, onde explicamos que nesse dia celebrava-mos o dia da Bengala Branca, que nasceu em 1964, ainda de madeira e pintada de vermelho e branco,consideraram-se elucidados. Neste feliz contato com jovens existe no entanto um facto que me entristeceu.Apesar de nos apresentarmos como pessoas cegas, somos tratados com a denominação de Invisuais! A palavra “cego” é demasiado forte para os ouvidos de muitas pessoas, portanto foi adotada a palavra “invisual” para se suavizar um facto que não deixa de ser uma realidade. Somos Cegos! Quando noutros tempos se tratavam os cegos por “ceguinhos” era ainda pior, mas, para a minha pessoa seja ceguinho ou invisual, para mim estão a maltratar-me. Não deixo de ser quem sou por ser cega, porque se diz: Deixa passar a ceguinha, eu por acaso deixei de ser mulher? Então porque não dizer: deixa passar a senhora,. Infelizmente quando somos cegos perdemos a nossa identidade.

Mas voltando ás nossas bengalas, são amigas que nos indicam obstáculos e barreiras para que os nossos percursos sejam mais fáceis, dando-nos assim uma autonomia e segurança preciosas. Não sou de tristezas, por isso aquilo que ficou de mais positivo nesse dia, foi isso mesmo, uma lição dada da melhor maneira possível em contacto direto de todos os intervenientes em questão.

Não hesitem em perguntar sempre que tenham dúvidas, só assim se aprende!

Desta sorridente amiga que vos saúda,
Muita felicidade,

Anunciação Velho

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sem fazer nada. Por isso!



 É com muita alegria que damos início à partilha aberta ao OUTRO. Esta é de uma das camisolas que eu visto :)

Ser de uma comunidade é mais que ter um grupo de pessoas com quem te encontras para reflectir sobre temas e levar conhecimentos...

Ser de uma comunidade é mais do que chegar no dia combinado, mais ou menos no horário que se determinou, entrar na sala e sentar-se naquela cadeira disposto a participar...

Ser de uma comunidade é mais que levar debaixo do braço um livro e o caderno dos apontamentos onde anotas aquelas coisas que ouves e preferias não esquecer e mesmo que depois não uses, naquele momento é importante...

Ser de uma comunidade é mais do que distribuir sorrisos e abraços sinceros à chegada e no momento de ir de novo para casa...

Ser de uma comunidade é mais do que saber aqueles cânticos que estão naquele livro no cestinho à entrada e que nos fazem vibrar a todos, porque quase que os sabemos de cór(AÇÃO)…

Ser de uma comunidade é mais do que ir áquela celebração naquele local que é o nosso e onde todos da comunidade tentam ir, áquela hora, porque sabemos que ali vamos estar juntos e celebrar em festa e ainda se calhar sair …

Apesar de uma comunidade ser tudo isso e mais outras coisas de que te estás de certeza a lembrar, eu diria que ser de uma comunidade se torna mais exigente quando não estamos juntos…

Ser de uma comunidade é tão mais difícil quanto mais se eleva a qualidade do que somos como comunidade…

Assim: Na nossa casa. No trabalho. No trânsito. Na fila do supermercado. Na bomba de gasolina. Ao caminhar na rua. No teatro. Ao assistir a um programa de televisão. Quando vais a Fátima ou tens que apanhar um avião. Quando encaixas uma desilusão… Quando lavas a loiça ou trocas a fralda do bebé. Quando olhas para o mar, de passagem desde a janela do autocarro…

Ser comunidade quando não estamos juntos… encaixar no mundo de uma tal forma que não mudavas uma vírgula no teu comportamento se, em vez de estares ali, estivesses com os teus irmãos de comunidade. Quando não há diferença em ti na forma como estás na cadeira da sala em que te sentas todas as semanas ou na celebração em que vibras com aquele cântico que todos sabem e sonham contigo e a forma como sorris para um desconhecido que cruza contigo o olhar na rua, ou na tal fila do supermercado.

Ser de uma comunidade é mais do que ser uma boa pessoa… ser de uma comunidade é conseguir que isso se note sem esforço, sem fazer nada por isso… na Vida!

Cristina Mesquita

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Faz-te ao Largo




  Faz-te ao largo com os irmãos

 A travessia da nossa própria solidão leva-nos ao encontro do Outro, daquele a quem chamamos o próximo. O próximo, o irmão com tantos rostos e nomes que connosco fazem caminho e dos quais vamos ao Encontro. O irmão que está tanto na comunidade com quem celebramos a nossa Fé, como na comunidade com quem celebramos a Esperança, como na comunidade que nos ensina ir para lá dos nossos limites e a sermos todos iguais na diferença que enriquece…

Comunidade Redentorista, Telefone da Esperança e ACAPO(Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal) são as três Fontes de Vida que eu mais referi neste espaço em jeito de partilha.

Todas estas experiências vivenciadas e partilhadas convergem num sentido comum. Foram portas e janelas abertas que fui encontrando ao longo de um caminho em busca do Encontro, da realização pessoal e da felicidade.

Conseguir concretizar este sonho de fazer este blog nascer e superar as expectativas também se tornou um belo Presente na minha vida, uma Boa Notíciaa acontecer. É bom saber por entrelinhas da importância que foi e ainda continua a ser para muita gente. É maravilhoso ouvir ecos de satisfação, de um “Continua!Vale a pena!”…

Pois então, vamos a isso! Daqui em diante, para além de mim, vai haver duas pessoas de cada comunidade, responsáveis na contribuição de pelo menos uma partilha por semana: Cristina Mesquita, Bé, Natacha Soares Ribeiro, Raquel Neves, Anunciação Velho e Maria João Lira. 3 Camisolas, 3 comunidades, rostos diferentes, desejos comuns, porque fazem mais sentido dar voz e espaço...

A ideia é continuar a dar referência das mesmas Camisolas que visto mas em tecido novo.

Muito obrigada a todos pela força que de alguma forma foram passando e fazendo eco em mim. O Partilho Contigo assim como o próprio nome indica, só pode fazer sentido se houver um EU e um TU.

Abraço, 
Mila



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Uns com os outros...

 Uma vez, alguém a quem eu já "roubei" textos para partilhar aqui, disse-me  isto: "A partir do momento em que lês um texto e te toque, passa a ser um bocadinho teu também.". Pois, ao ler este que se segue foi o que senti, e por isso não o podia deixar de colocar neste cantinho onde existe tanta partilha de nós mesmos.

 

Uns com os outros...

Hoje apenas quero agradecer a existência da partilha!

Não a partilha do alimento, que também ela é importante, mas a partilha que acontece quando nos abrimos uns aos outros... a partilha de nós mesmos!



Obrigada bom Deus, por nos podermos dar uns aos outros e nos mostrarmos assim... sem defesas!
É tão bom descobrir pessoas simples, que com vergonha se vão "destapando" por acharem que nada têm para mostrar ou dar...

Obrigada pela partilha que coloca o nosso sofrimento do tamanho de uma ervilha...  ou aquela partilha que nos mostra que não sofremos sozinhos... A minha dor é tantas vezes a do outro, e eu nem sei!

Tanta coisa que se encontra à distância de uma palavra!

Obrigada pela partilha que me torna "normal" e me faz sentir pertença de algo!
A partilha tem uma capacidade enorme! Resolve e trava tantas guerras! Evita tantos desmoronamentos!

E obrigada porque temos muito a aprender daqueles que sofrem.
Obrigada pela realidade da PROXIMIDADE, ESCUTA e ESPERANÇA!
Obrigada pelas pessoas disponíveis para serem aquilo que melhor sabem ser... pessoas!


Postado por Ana Ascensão no http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2013/09/uns-com-os-outros.html

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Caminho e a Liberdade de sermos livres



  


O ano passado, eu e o meu marido decidimos percorrer o caminho de Valença a Santiago de Compostela e, recentemente, seguimos de Santiago a Finisterra.

Fazer o caminho de Santiago é uma experiencia única e maravilhosa. Da primeira experiência tudo era novo para mim mas, desta vez, descobri que tudo continua a ser novo. É sempre diferente, são outros dias, outros acontecimentos, aventuras, novos encontros, novas histórias partilhadas, novos desafios, novas conquistas, novas surpresas… Sobretudo a liberdade de sermos livres que o próprio caminho nos faz vivenciar.

Desta vez ainda menos coisas levamos na mochila, menos nos preocupamos com o que havíamos comer no dia seguinte, onde havíamos dormir... “Não vos preocupeis com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas próprias dificuldades. A cada dia basta o seu peso.” (Mateus 6.34) Nunca isto me fez tanto sentido como naqueles 5 dias. Concretamente experienciei situações que me levaram a fazer esta reflexão que foi uma grande aprendizagem para nós.

Este caminho permite-nos repensar a nossa vida no bom e menos bom pela beleza que tem e pelas dificuldades do mesmo. Há nele uma magia inexplicável, mesmo quando os pés não queriam obedecer, quando os ombros arqueavam, as ancas e os joelhos doíam, nada disto me fazia desanimar. Nunca senti vontade de desistir. Mais à frente havia sempre algo que nos motivava a continuar: uma linda paisagem, um peregrino que passa por nós e nos dá uma palavra de conforto, um senhor que mais além está na beira do caminho a oferecer limonada, outro mais adiante conta-nos uma história incrivelmente inspiradora… e logo parece que as forças voltam para vencer aquela subida “Rompe Pernas”que mais à frente nos depara. A seguir mais uma descida de caminho bastante irregular cheio de pedras e pedregulhos soltos que nos massacram ainda mais os músculos, enfim... Mas de mãos dadas lá fomos os dois caminhando passo a passo e rezando a vida até ao albergue para tomarmos um merecido banho e descansar!

Com os encontros e reencontros que fazíamos nos albergues, dava-nos a conhecer partilhando histórias, culturas, credos…entre portugueses, ingleses, espanhóis, alemães, holandeses, franceses, italianos, neozelandeses, marroquinos, japoneses, argentinos, etc. Todos diferentes mas com o mesmo espírito de fraternidade e união. Cada um atento ao outro. Estou-me a lembrar por exemplo de um rapaz de Barcelona que queria disponibilizar-me a cama e dormir ele no chão, por já não haver camas livres e ver-me menos bem fisicamente. Assim outros exemplos de gestos semelhantes foram acontecendo.  

Normalmente na cozinha dos albergues cada um se organiza a fazer o jantar para si ou para mais um ou dois que entretanto se conheceram, mas desta vez foi diferente: num dos dias um marroquino tomou a iniciativa de preparar uma deliciosa “pasta” com atum e fizemos festa todos juntos. Noutro albergue onde nos alojamos no dia seguinte, já é habitual o jantar e pequeno-almoço ser em comum. Os dois hospitaleiros responsáveis por esse albergue, por opção voluntária, fazem as suas férias acolhendo os peregrinos não fazendo preço, dando cada um o que pode e o que entende. Este albergue funciona com a generosidade e o carinho de cada um. Sentimo-nos em casa. Fomos muito bem acolhidos pelos hospitaleiros e também pelos peregrinos que entretanto já tinham chegado, parecia mesmo uma família que nos esperava. Logo nos libertaram da mochila, nos deram água fresca e nos encheram de mimos. Enquanto tomamos banho e lavamos a roupa já todos preparavam o jantar. Ali todos ajudam e ainda há tempo para descansar, ler, ouvir musica, dançar, confraternizar na mesa do jardim… cada um sentia-se plenamente à vontade como se estivessem em casa. Comemos todos á mesma mesa e brindamos à saúde em todas as línguas lá referidas. Pernoitamos no jardim a cantar acompanhado do som da guitarra tocada por um italiano. Naquela noite foi assim mas, por exemplo, na véspera o céu estava estrelado e os peregrinos que lá passaram olhavam as estrelas fazendo uma meditação.

Muita coisa aconteceu que não se pode transmitir por palavras. O que levamos e trazemos no coração só sabe quem experimenta.

Caminhar e fazer encontro com gente simples e bonita enriquece-nos os sentidos e tudo em cada momento da nossa vida ganha outro sabor.

Queremos continuar a fazer Caminho e Encontro!

Emília Pinto