sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

(5ª e ultima parte do texto da Susana)


Bom dia pela última vez esta semana…

Hoje estou a lutar, estou a fazer reabilitação, estou a renascer e a reaprender a lidar comigo e com os outros perante a minha condição. Estou a aprender a aceitar; estou a procurar e a lutar pelo meu trabalho. Por um trabalho diferente do que eu fazia, mas um trabalho que me realize e em que me sinta bem; que me motive a sair todos os dias de casa, por me saber verdadeiramente incluída.)
            Estou a lutar para me incluir na sociedade, mas também preciso que a sociedade, que somos todos nós, a minha entidade patronal, que é o Estado, seja capaz de me oferecer condições. De adaptar o meu local de trabalho às minhas necessidades.
 Nestes últimos tempos tem sido a minha luta, porque depois de ter entrado no processo de reconversão fui deslocada para uma escola a mais ou menos 90 km de casa. Será esta a inclusão que a minha entidade patronal quer promover?! Não deveria ser o Estado o primeiro a dar o exemplo? Afinal na lei os deficientes têm os seus direitos, mas na prática acabámos por cair numa teia de confusões, complicações, incongruências e burocracias para as quais temos dificuldades em encontrar soluções. Na verdade, às vezes interrogo-me se isto não acontece para nos obrigar a desistir e rescindir o contrato com o Estado… Afinal estamos em plena crise, refundação social que serve de desculpa para as atitudes que o nosso governo resolve tomar… Mas isto são apenas os meus pensamentos. Sinto-me presa numa encruzilhada; estou à procura de soluções, mas não quero viver angustiada.Quero ser feliz. Sei que ainda tenho muitas lutas pela frente mas estou a lutar por essa felicidade.
Estou a reunir forças, condições físicas e emocionais, estou a ganhar autonomia e independência, vontade de viver, de desfrutar das coisas boas da vida e não pensar muito seriamente no dia de amanhã. Hoje o meu lema é um dia de cada vez; e quando as situações boas ou más chegam ALGUÉM nos dá força para lidar com elas. ALGUÉM nos dá a capacidade de trilhar caminhos… por mais sinuosos que sejam. Acreditem…
Finalmente este texto chegou ao fim. Não foi minha intenção “usar-vos” como meros leitores da minha história, mas sim tentar despertar consciências, abrir os nossos corações para este tipo de situações que todos os dias acontecem. E um dia também podem bater à nossa porta.

Uma pequena curiosidade; tendo em conta a minha baixa visão, com as aulas de informática na ACAPO, hoje já sou capaz de escrever os meus textos utilizando o JAWS. Um software de ajuda aos cegos e ambliopes, recorrendo ás técnicas que a Anunciação Velho descreve no texto “Como escreve e lê um cego” publicado no Blog Partilho Contigo no dia 20 de Janeiro de 2014. Para mim tem sido uma grande conquista, principalmente no que diz respeito à autonomia e autoconfiança.
Até breve!!!!
                                                               Susana Monteiro


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

(4ª parte do texto da Susana)


Bom dia, cá estou de novo para dar continuidade a esta história que partilho convosco.

Nos últimos dois/três anos de trabalho fui perdendo visão. Nunca o omiti à minha entidade laboral. As escolas por onde fui passando deram-me apoio dentro das suas capacidades; as colegas foram acessíveis e compreensivas. Mas no último ano as coisas não correram assim tão bem. A Direcção do AGRUPAMENTO DE ESCOLAS onde fiquei colocada mostrou-se incapaz de me acolher e de lidar com todas as minhas limitações físicas. A primeira atitude foi a de me responsabilizar por qualquer situação negativa que pudesse acontecer na sala. Depois tentaram por os pais contra mim,(informando-os que a educadora dos seus filhos era praticamente cega. Penso que pretendiam lançar a insegurança e o descrédito nos mesmos pela realização do meu trabalho e das minhas capacidades o que não resultou. Estes foram mais conscientes e sensíveis do que aqueles que promovem a Educação e que deveriam promover a dita integração, DESCULPEM a inclusão. 
Durante o tempo que estive nesta escola experimentei que era um problema; senti-me sozinha numa luta por um direito meu: trabalhar e realizar-me, humana e profissionalmente.
Perante a realização positiva o do meu trabalho e a satisfação dos pais, pelo mesmo que fui capaz de realizar com os seus filhos (crianças de dois e três anos) ao longo de três meses, SENTI A DISCRIMINAÇÃO.À excepção de algumas colegas que me iam dando força e algum apoio,para outras eu era uma coitada com uma deficiência motora e uma deficiência visual.Vivi sob olhares da pena e do descrédito e a manifestação do incómodo das pessoas perante a minha presença.  Ao viver todas estas situações, experimentei um turbilhão de sentimentos que passaram pela  revolta, a  incapacidade/força para lutar, a solidão, a angustia, a incompreensão entre outras…
Pessoas com problemas graves de saúde têm que lutar/trabalhar o dobro para mostrarem o que vale e do que são capazes. Têm que ter força de vontade para mostrarem que, na maior parte das vezes, as limitações estão na cabeça de cada um, no julgamento que as pessoas fazem do outro sem o conhecer.
Senti uma série de pressões psicológicas contra as quais não fui capaz de lutar, talvez por não ter conhecimento de como me defender,. Não encontrar naquela altura as ajudas adequadas Acabei por ceder. Fui chamada a uma Junta Médica da DREN e deram-me como incapaz para o exercício das funções docentes. A minha carreira como Educadora acabou ali, a 28 de Outubro de 2011. Depois desta decisão entrei num processo de reconversão da carreira e corro o risco de cair na mobilidade especial
Depois de entrar no processo de reconversão, a proposta inicial da entidade patronal da altura era realizar seis horas diárias em frente a um computador, sem preparação e sem equipamentos adequados à minha situação, só porque outras colegas que se encontravam na mesma situação profissional, por outros motivos de saúde, também realizavam essas tarefas. Recusei, porque no meu ponto de vista se não tinha capacidade para realizar funções docentes, a minha doença também não me permitia passar tantas horas em frente a um computador que não estava adaptado, e para o qual eu ainda não tinha formação para o fazer.
Segundo a lei da reconversão, o local de trabalho e as condições devem ser adequadas e adaptadas às capacidades e limitações de cada um. Assim,tendo em conta a minha posição mudaram-me para outra escola pertencente ao mesmo agrupamento e puseram-me a atender telefones.
Senti-me desolada, depois de tantos anos de luta e de esforço para ser aquilo que gostava: Educadora de Infância. Acabei aquele ano lectivo a atender telefones, esperando que o tempo passasse para poder ir para casa e chorar, chorar até à exaustão. Até adormecer e acordar no outro dia sem vontade de enfrentar o mundo. Sem saber o que fazer à minha vida. Sem saber que sentido tinha a minha vida. A nível profissional aquele ano foi para esquecer. Recolhi-me no meu mundo, procurando respostas. Ano e meio em casa entre cirurgias e recuperações, à espera de uma solução para mim.
CONTINUA (…)
É só mais um dia… Até amanhã!
                                                               Susana Monteiro 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

(3ªparte do texto da Susana)

Bom dia, mais um dia, mais um bocadinho da minha história!
            
Trabalhei, como Educadora de Infância, a profissão que escolhi que abracei e que adorava, não só pelo contacto com as crianças e com as famílias, mas também porque acreditava que a minha forma de ser e de estar na vida, a minha forma de trabalhar com o grupo podia deixar uma semente boa, que mais tarde poderia nascer e florescer. Que poderia deixar algo de bom naquelas pessoas com quem lidava. Quando trabalhava, dedicava-me e fazia-o de forma consciente. Gostava de trabalhar no terreno, com e para as crianças e as famílias. Gostava de proporcionar experiências positivas e felizes aos “meus meninos”. Gostava de os ver sorrir. Gostava que tivessem tempo para brincar, para serem crianças… Sim, porque eu tive o privilégio de ser criança até muito tarde.
Hoje, as crianças nem têm tempo para ser crianças. As obrigações profissionais dos pais, assim como as exigências sociais levam as crianças a ter de frequentar uma série de actividades como o ballet, a música, a piscina, o inglês e mais um conjunto de atividades,que retiram-lhes não apenas tempo, mas também espaço interior para, na verdade, experimentarem o seu “tempo de ser criança”. Torna-se-lhes impossível APRENDER a desfrutar, a conviver uns com os outros e, particularmente, com a família (os pais, os irmãos, avós, etc.)). Ah! pois, é verdade, a sociedade tem de produzir…
Estas questões talvez sejam reflexões para outros textos. Mas no fundo tudo se encontra interligado; a sociedade somos todos nós, uma teia de relações, de pessoas que interagem entre si.Aprendemos e desenvolvemo-nos na interação de uns com os outros) É importante pensarmos que tipo de sociedade queremos para NÓS E PARA O NOSSO FUTURO…
Voltando a focar-me no assunto principal, gostava de partilhar convosco a discriminação/exclusão que senti no último ano que trabalhei na profissão dos meus sonhos. Como sabem de abordagens anteriores, sou ambliope (baixa visão). A progressão da doença foi-me trazendo dificuldades a muitos níveis. Uma delas foi na questão laboral.
CONTINUA (…)

Amanhã estou de volta!!!

                                                        Susana Monteiro

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

(Continuação do texto anterior)

Olá bom dia!

Mais um dia, mais um pouco da minha história…
(…)  A diferença, seja ela qual for é sempre apontada. Por vezes é um problema para os ditos normais, aqueles que não têm limitações físicas. Mas afinal quem são os normais?! Afinal quem são os limitados?! Não existem só limitações físicas. Existem aqueles com limitações na ALMA, no CORAÇÃO. Aqueles que não vêm para além do que os olhos lhe mostram. Aqueles que se baseiam apenas nas capacidades físicas do ser humano, na sua produtividade e no lucro que podem obter.
É importante, pensar e reflectir sobre a sociedade que todos nós ajudámos a criar, a estruturar-se.
Que sociedade estaremos nós a construir?
Uma sociedade consumista, uma sociedade baseada no TER e não no SER. Uma sociedade baseada no Eu e não no NÓS. Uma sociedade egocêntrica onde os valores da família, da solidariedade, da fraternidade, da caridade (enquanto atitude de generosidade), da justiça, da igualdade da inclusão ficam muitas vezes pelo caminho, em benefício dos interesses financeiros e o bem-estar individual. Estamos a educar e a formatar crianças para o“salve-se quem puder”... Estaremos a criar uma sociedade que não olha a meios para atingir os fins?! E na Educação/Escolas fala-se tanto da tal integração; na tal “escola inclusiva”. Trabalha-se muito bem, no papel, os valores e a cidadania, mas depois a prática é que se torna o mais difícil, ou quase ineficaz. Claro que esta responsabilidade não é só da entidade Escola. Deve ser uma responsabilidade partilhada entre a sociedade, não apenas enquanto entidade funcional do Estado, mas também cada um de nós, a nível individual e, naturalmente, a família.
(…) CONTINUA
Até amanhã!
                                                Susana Monteiro


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Integração ou Inclusão- Eis a questão

Olá amigos, esta semana vou estar cá todos os dias a partilhar convosco mais um pouco da luta que tem sido a minha vida. Luta esta que me proporciona vivências que me têm ajudado a fortalecer e a crescer e desenvolver interiormente, como pessoa. Fazem-me olhar para a vida com outra postura, a agradecer aquilo que tenho e que afinal sou capaz. A viver com serenidade. A aceitar todas as experiências como parte integrante da vida. Afinal viver é uma aventura que todos os dias nos traz novos caminhos.
Tendo em conta que o texto que partilho convosco mais uma das muitas experiências da minha vida se tornou muito longo, este vai ser publicado por fases. Ou seja, em cada dia desta semana será publicada uma parte da minha história relativas às vivências de discriminação no local de trabalho e as dificuldades que muitas vezes senti em realizar a minha profissão apenas porque sou portadora de algumas limitações.
 Antes de vos contar a minha experiência penso que seria importante fazer uma pequena reflexão sobre os conceitos de integração e inclusão e a postura da sociedade sobre os mesmos.





Descrição da imagem:
A imagem que ilustra o texto é composta por quatro círculos. Cada circuo define por imagem o que é a exclusão, a Segregação, a Integração e a Inclusão.
No círculo da Exclusão pode-se ver os indivíduos ditos normais dentro do mesmo e no seu exterior os  indivíduos com deficiência.
Na Segregação aparece dois círculos. Um maior que inclui os indivíduos normais e ao lado, um círculo mais pequeno que inclui as pessoas com deficiência.
Na integração pode-se ver dois círculos, o mais pequeno das pessoas com deficiência integrada dentro do círculo maior, o das pessoas ditas normais.
Na Inclusão todos os indivíduos estão incluídos no mesmo círculo.



Depois de ter visto esta imagem no Facebook de uma amiga senti que podia partilhar convosco a minha experiência a este nível. Já alguma vez se sentiram descriminados/excluídos no vosso local de trabalho? Eu já… E dói muito.
Estamos em 2014, no século XXI. Embora se fale muito de inclusão raramente ela acontece verdadeiramente. Ainda PRESENCIAMOS/VIVEMOS A DISCRIMINAÇÃO. Esta pode ser mascarada de várias formas. Podemos vivê-la na forma de exclusão, ou na forma de segregação, ou até na forma que nos parece mais simpática, a integração.
 E perguntam vocês! Qual é a diferença entre a integração e a inclusão? De fato, estamos num tempo de transição entre ambas e ambas se confundem permanentemente. Na verdade, a integração centra-se basicamente na capacidade do individuo com deficiência se adaptar/reabilitar, na sua capacidade, e na capacidade da sua família em ultrapassar e lutar contra as barreiras físicas e organizacionais que a sociedade lhe impõe; a sociedade apenas aceita o individuo e não cria condições adequadas para a sua inclusão.(1)
A inclusão social é um processo que contribui para a construção de um novo tipo de sociedade, através de pequenas e grandes transformações, nos ambientes físicos (espaços internos e externos, equipamentos, aparelhos e utensílios, mobiliário e meios de transporte) e na mentalidade de todas as pessoas, inclusive a pessoa com deficiência.(…) CONTINUA

Até amanhã…

NOTA: (1)
Fundamentação teórica retirada de: Compreendendo os Conceitos de Integração e Inclusão ...www.todosnos.unicamp.br › ... › Acessibilidade e Inclusão ›


                                                                                                                   Susana Monteiro

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

E, por falar em mudanças…

(Esta imagem representa vários móveis em cima uns dos outros: sofás, uma televisão, um telefone, secretárias, cadeiras e um candeeiro.)
 
 Há gente especialista em mudar: de opinião… de fatiota… de casa… de carro… de amigos… de amantes… Saltita daqui para ali sem criar laços, nem fazer ninho…por interesse… por conveniência… porque sim… por desfastio…

Há também quem mude por lucidez…E esses não mudam. Esses vão-SE mudando - de fora para dentro, até ao seu mais íntimo.

De tal modo e com tal simplicidade o fazem que a gente quase nem dá por isso. E até parece coisa fácil…
Quando a sua Humanidade nos aparece tão naturalmente Humana, nem sequer (nos) perguntamos quanto Silêncio, quanto treino, quanta derrapagem sem angústia (porque a derrapar assim também se aprende), estão por detrás desse modo encantadoramente discreto e Humano de viver…

Por outro lado, também há quem não mude nem SE mude: por teimosia e caturrice, por convencimento verdadeiro de que, olhando para eles qualquer um está perante a perfeição em forma de gente. E, depois, “Sempre fui assim! Não é agora que vou mudar!”… “Agora não, que ainda é cedo”… “Já estou velho p’ra isso”… “Não sou capaz!”… “Porquê eu? Eles que mudem!”… etc… etc…

É a preguiça, a fraqueza, a teimosia ou simplesmente o medo a meterem-se onde não são chamados…

Desinstalarmo-nos faz morrer muita coisa em nós… Dói que se farta sentir a areia a fugir debaixo dos nossos pés…E, depois, verdade, verdadinha, só SE muda quem se apaixona … 

É a paixão que nos faz ultrapassar todos os limites, vencer todos os medos, saltar todas as barreiras, abrir os braços aos ventos e respirá-los sem medo…mesmo sem saber para onde nos vão levar e, quem sabe, ser raiz de mudança, nas estruturas de comodismo e “não te rales”, das estruturas de pecado, de escravidão e desastre que minam a sociedade e os mundos que habitamos insistindo em querer esvaziar-nos no mais íntimo...

Só gente apaixonada é capaz de encher de aventura, deslumbramento e brilho os dias mais embaciados. De pequenas/GRANDES MUDANÇAS os dias mais iguais.

Pena que nem sempre nos consintamos esse privilégio, preferindo navegar em águas mornas e sem ondas. Na família, na religião, na sociedade… Até compartimentamos tudo que é para ser mais fácil viver uma vida arrumadinha… encaixotada… sensata…normal…

Apaixonar-se não é para fracos nem para medrosos… ISSO é para gente que, por entre pequenas e simples experiências de Liberdade se vai fazendo LIVRE ao jeito do Homem Novo - sem resguardos nem reservas… sem medo das dores que acompanham todas as mudanças que, como metamorfoses, nos rompem pele, tecidos, veias, irrompendo em VIDA NOVA.

Então, um Sol sempre Novo nos surpreenderá em cada Amanhecer… E o Horizonte será sempre a perder de vista!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

que bem que faz!

 
 (A imagem é um baby-grow, ou um pijaminha de bebé, em branco, que tem o escrito a negro "I love Tia". A palavra love não está escrita. Está representada por um coração vermelho.)

 Hoje tive uma notícia que me surpreendeu o coração e me deixou com uma sensação de novidade como nos deixam as boas notícias que nós esperamos mas não sabemos quando vão acontecer. Dei conta de um sorriso no meu coração. Um sorriso completo de uma vida que existe para além de mim mesma. O meu irmão vai ser pai. Eu vou ser Tia.  Nesse momento, deixei que o meu pensamento marcasse um ritmo livre e ele escolheu contar, desde o primeiro, até ao último, que foram 12 as vezes que me chegou o mesmo eco de boa noticia que se viria a concretizar em 14 vidas de sobrinhos e sobrinhas. 
                                             Vou ser Tia pela décima quinta vez :) :)
E é como se fosse a primeira.  A minha relação com os meus sobrinhos faz-me ser melhor pessoa. Ser com eles, qualquer um deles único de forma especial… Vê-los crescer, tomar partido por eles... Essas lindas criaturas pertencem-me por um laço que é o do sangue… corre-lhes nas veias o mesmo sangue que me deu vida a mim. No ADN transportam carga genética igual à minha… Os meus sobrinhos prolongam a minha existência. Os filhos dos meus irmãos são meus filhos também. Estremeço-os, sinto-os em mim num bem querer que se explica em abraços, histórias, cumplicidades, mimos – muitos! Os meus sobrinhos e as minhas sobrinhas são os mais lindos, os mais perfeitos… Dizem-me respeito. E correspondem a este amor. Sou a Kikinha para alguns, a Tia Kika para outros… Correm para o meu colo, todos, por igual, cada um no seu tempo, ao seu jeito… mas todos vêm aqui parar um pouco junto a mim. E eu cheiro-os… Cada um tem um cheirinho a família tão bom… Eu sinto o seu cabelito, as mãozinhas, que crescem com uma rapidez que me consola… Penso com os meus botões:  Olha… também podias ter feito a mesma coisa, ter tido assim mais um ou dois... Eu fiquei-me por um que, claro é o mais lindo do mundo e o filho perfeito! É uma companhia formidável, tem uma paciência no seu ser filho que me comove diariamente… Rico filho! E também é perfeito porque tem os primos e as primas mais encantadores mais fofinhos e fofinhas, do universo, enquanto quiserem ser, claro… Depois podem adolescer e ser palermas como os adolescentes são que aqui a tia Kika sabe que aquilo passa e quando os pais não estão a ver, diz-lhes sempre que eles é que têm razão, que o mundo é mesmo uma m*** e que eles é que sabem tudo e tudo! E não é verdade? E curamos as valentias dos males deste mundo num Mac Donalds qualquer, ou num prato de bolonhesa ou carbonara, na minha casa. Ou então a rir e a dizer asneiras como se não houvesse amanhã. Eu com as minhas sobrinhas vou ver os filmes de todos os Morangos com Açúcar do mundo e arredores e sinto que estou a crescer mais do que se estivesse numa palestra no CCB… Com as minhas sobrinhas adolescentes eu espero numa fila de bilheteira de cinema num Shopping que chegue a minha vez de ser atendida para comprar os bilhetes do filme que para elas é muito mais que isso. Vão poder contar na escola que foram ao cinema ver Os Morangos quase na estreia e vão poder contar o que viram… ou não! Elas é que sabem, porque elas sabem tudo! E nem sequer precisam de dizer que foram com a tia-mais-linda-do mundo. Isso não interessa nada! Ser tia é uma das poucas  melhores coisas do mundo. Não sei se é assim para todas as tias do mundo. Mas para mim só assim é que se é tia. Sendo toda. Na saúde e na doença, na riqueza e na tristeza, todos os dias da nossa vida e até que a morte nos separe. Ter sobrinhos não tem fim. Não tem prazo. Ser tia é ser mais feliz. É ser mais pessoa. É ser mais! De cada vez que sou Tia é a primeira vez que me acontece poder de novo ser a melhor do mundo para alguém. 

Cristina Mesquita De Oliveira
https://www.facebook.com/cristina.m.deoliveira